quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Adaptação do pensamento de Antoine de Saint-Exupéry

Décima baseada na frase "O coração não se prova com o escalpelo ou o silogismo: sente-se por uma afinidade impalpável" (Rui Barbosa)



Décima baseada em parte de um poema de Fernando Pessoa, pelo seu heterônimo Alberto Caeiro

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Décima baseada num texto do livro de Bertrand Russell assim intitulado: A Conquista da Felicidade

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Confissão de Cabôco (Zé da Luz)

Seu doutô sou criminoso,
Sou criminoso de morte,
Tô aqui pra me entregá.
Vosmicê fique sabendo
Que a muié que traz a sorte
De atraiçoá o esposo
Só presta pra se matá.


Lhe peço um grande favô
Antes de vossa mercê
Me botá daqui pra fora:
É a licença do doutô
Pr´eu lhe contá minha estória.


Sinhô, doutô delegado,
Digo a vossa senhoria
Que inté ontem fui casado
Com a muié que em vida
Se chamou Rosa Maria.


Faz dez mês que nós morava
Como pobre, é verdade,
Mas a gente se sentia
Rico de felicidade.


Pras banda que nós morava
No lugá Chão da Cutia,
Morava também um cabra
Chamado Chico Faria.


Esse cabra mais pra trás
Tinha gostado de Rosa,
Chegaram inté a ser noivo,
Mas não fizeram a entrosa
Do casamento, pru mode
Mané urêia de bode
Que era padrim de Maria
Ter desmanchado essa prosa.


Entonce, Chico Faria,
Adispois que nós casamo,
Em conversa, às vez dizia
Que ainda me dava fim
Pra se casá com Maria.


Dessas coisa eu sabia
Mas nunca dei importância.
Tinha toda confiança
Na muié que eu amava
Ou mais mió adorava
Com toda minha sustança.


Dispois disso, o meu rijume
Era vivê trabaiando
Sem da muié ter ciúme.


A muié, por sua vez,
Não me dava cabimento
D’eu pensá que ela fizesse
Um dia um farsejamento.
Mas seu doutô tome tento
No resto da minha estória
Que o ruim chegou agora.


Se não me falta a memória,
Já faz assim uns três mês
Que o cabra Chico Faria,
Todo prosa, todo ancho,
Quase sempre, mais das vez,
Avisitava o meu rancho.


Por ali desconfiado,
Como quem qué e não qué,
Eu fui vendo que o malvado
Tentava minha muié.


Ou tentação ou engano,
Eu fui vendo a coisa feia,
Por derradeiro eu já tava
- Mosca detrás da urêia.


Os tempo foram passando
E o meu arreceiamento
Cada vez ia aumentando
Seu doutô, vá escutando!


Ontem já de tardezinha,
Meu cumpade Quinca Arruda
Me chamô pra nós dançá
Num samba lá na Varginha,
Na casa de Mestre Duda.


Mestre Duda é um cabôco,
Um tocadô de primeira,
É o emboladô de coco
Mais bom daquela ribeira.


Entonce, Rosa Maria,
Sempre gostou de sambá.
Mas porém, desconfiada,
Me disse já de noitinha
Que pro samba ela não ia,
Que tava muito enfadada,
Precisava se deitá...


Eu fiquei desconfiado
Com a preposta da muié.


Dispois que tomei café,
Quase puro, sem mistura,
Com a faca na cintura,
Fui pro samba, fui sambá.
Cheguei no samba, doutô,
Quem era que tava lá?
O cabra Chico Faria
Que, quando foi me avistando,
Foi logo me perguntando:
Cadê Sá Dona Maria?
Não veio não, pra dançá?


-Não sinhô, ficou em casa.
Pro Faria arrespondi.
Sentí entonce uma brasa,
Queimando meu coração.


Nunca mais pude tirá
As palavra desse cabra
Da minha imaginação.
Perdi o gosto da festa,
E não pude dançá não.
O cabra, por sua vez,
Não dançava, seu doutô,
De vez em quando me oiava
Com oiá de um traídô.


Meia noite, mais ou menos,
Se adespedindo dos povo,
Disse: - Adeus, que eu já vou.


Quando ele se arretirou,
Eu também me arretirei,
Atrás dele, sim sinhô.


Ele na frente, eu atrás,
Se o cabra andava depressa
Eu andava muito mais.
Noite escura como breu!
Nem eu avistava o cabra,
Nem o cabra via eu.
Sempre andando sempre andando
Ele na frente, eu atrás.


Já nem se escutava mais
A voz do fole tocando
Na casa do mestre Duda.


A noite tava mais preta
Que a consciência de Juda.


Sempre andando sempre andando
Eu fui vendo, seu doutô
Que o malvado ia tomando
Direção de minha casa
Minha casa sim sinhô
Já pertinho do terreiro
Eu me escondi por detrás
De um pé de trapiazeiro.


Abaixadinho, escondido
Prendi a respiração
Abri os óio, os ouvido
Pra mió ver e ouvir
Quá era sua intenção
Seu doutô repare bem
O cabra oiando pra trás
Do mesmo jeito que faz
O ladrão pra ver alguém
Não tendo visto ninguém
Na minha porta bateu.


De lá dentro uma voz
Bem baixinho arrespondeu
Ele entonce cá de fora:
‘Quem tá batendo sou eu’
De repente abriu-se a porta
Aí, seu doutô, nessa hora
A esperança tá morta
Tava morto meu amor
No escuro uma voz falou
Tá aqui seu Chico uma carta
Que a tempo tinha escrevido
Pra mandar pra vosmicê.


Por favô não leia agora
Vá simbora, vá simbora
Que quando chegar em casa
Tem muito tempo pra ler...


Quando minhas oiça ouviu
As palavra que Maria
Dizia pro desgraçado,
Eu fiquei amalucado,
Fiquei quase como um louco,
Ou mió, como um cabôco
Quando tá cheio de esprito.
Dum salto como um cabrito
Eu tava nos pés do cabra
E sem querê dei um grito:
-Miseráve! E arrastei
Minha faca da cintura.
Naquela hora, doutô,
Eu vi o Chico Faria
Na beira da seputura.
Mas o cabra teve sorte,
Sempre nessas circunstância
Os home foge da morte.


Dei de garra do papé,
O portadô da traição,
Machuquei nas minha mão
A honra, doutô, a honra,
Daquela falsa muié.


Dispois oiando pra carta
Tive pena, pode crê
De não ter aprendido a ler
Nas letra ali escrevida,
O que dizia Maria
Pro malvado traídô.


Tive pena, sim sinhô,
Mas que houvera de fazê,
Se nunca aprendí a ler?


Maria me atraiçoou,
Essa muié que um dia
Ajoeiada nos pé do altá,
Jurou em nome de Deus
Que enquanto tivesse vida
Houvera de me honrá
E me amá com todo amô.


Com perdão de seu doutô,
Quando vi o miseráve,
Na escuridão da noite,
Dos meus zóio se escondê,
Sem deixá nem sombra inté,
Entrei pra dentro de casa
Pra me vingá da muié.
Doutô, que hora minguada,
Maria tava ajoeiada,
Chorando com as mão posta,
Como quem faz oração...
Oiando pra eu pedia
Pelo Cálice, pela hóstia,
Pelo amô que eu lhe amava
Que eu não fizesse isso não.


Sem dizê uma palavra,
Agarrei das suas mão,
Levantei ela pra riba,
E enterrei inté o cabo,
O ferro da parnaíba
Por riba do coração.


Salvei a honra, doutô,
Salvei a honra, apois não.
Dispois que vi Maria
Cair sem vida no chão,
Vim falá com vosmicê,
Vim confessá o meu crime
E me entregá às prisão.


Se seu doutô não acredita
Se sou criminoso ou não,
Tá aqui a faca assassina
E o sangue nas minhas mão.
Como prova da traição,
Tá aqui a carta, doutô.
Lhe peço um grande favô.
Antes de vossa senhoria
Me mandá lá pras prisão,
Me leia aqui essa carta
Pr'eu sabê como Maria
Preparava a traição.


A CARTA
"Seu Chico. Chã-de-Cutia


Digo a vossa senhoria
Que só lhe faço essa carta
Pro sinhô ficá sabendo
Que eu não sou a muié
Que o sinhô tá entendendo.


Se o sinhô continuá
Com seus dibique atrevido,
O jeito que tem é contá
Tudo tudo a meu marido.
O sinhô fique sabendo
Que com seu descaramento
Não faz nunca eu quebrá
O sagrado juramento,
Jurado nos pés do Altá,
No dia do casamento.


Se o sinhô é enxerido
Encontrou uma muié forte,
O nome do meu marido
Eu honro inté minha morte!
Sou de vossa senhoria,
Sua criada Maria."


Doutô, doutô me arresponda
O que é que eu tô ouvindo.
Vosmicê tá lendo a carta,
Ou tá... tá me iludindo?
Doutô, meu Deus, doutô,
Maria tava inocente...
Mi arresponda, por favô!


-Inocente, sim sinhô.

Matei Maria inocente...
Pruquê, seu doutô, pruquê?
Matei Maria somente,
Pruquê não aprendi a ler.
Imagine agora o doutô
Quanto é grande o meu sofrê.
Sou duas vez criminoso.
Que castigo, que horrô!
Que crime não sabê ler!



        Poema declamado por Rolando Boldrin

A Arte da Cantoria

Cantadores: Otacílio Batista e Diniz Vitorino.

Com gravação original da Fundação Padre Anchieta, o programa MPB Especial lançou o LP intitulado 'Os Violeiros', em que documenta as diversas manifestações da poética popular nordestina e da música que tão bem a caracteriza.


Esse disco apresenta, além de alguns temas glosados, algumas das regras da cantoria mais em voga no presente. Para os cantadores repentistas, essas regras representam o conjunto de gêneros que compõem a arte de poetar, ou seja, uma espécie de gramática do verso e das rimas, que aprendem pela oralidade.

Diz o prof. Manuel Diegues Júnior : "São, assim, ricas e belas as maneiras de expressar-se do cantador popular, nas diversas manifestações de seu pensamento, através de ideias e de imagens, que não são palavras soltas ao vento; mas, ao contrário, existe neles uma realidade vivida que se traduz não somente na riqueza das formas,"como ainda e, principalmente, na variedade e beleza das ideias."


Eis os gêneros e temas desenvolvidos pelos cantadores repentistas:

Gêneros

1. Martelo dodecassílabo
2. Mourão
3. Dez pés a quadrão
4. Brasil caboclo

5. Galope à beira-mar
6. Gemedeira

Temas

1. São Paulo faz tanto frio que doi na carne da gente
2. Padre Cícero Romão, Virgulino Ferreira, Lampião
3. O vaqueiro e o pescador (Otacílio Batista)
4. Vamos pedir a Pelé que não deixe de jogar



Otacílio Batista e Diniz Vitorino 
   

A resposta do Jeca-Tatu (Catulo da Paixão Cearense)

Seu doutô, venho dos brêdo,
Só pra mode arrespondê
Toda aquela fardunçage
Que mecê foi escrevê!

Não teje mecê jurgando
Que eu sou algum cangussú!
Não sou não, Seu Conseiêro.
Sou norte, sou violêro
E vivo naquelas mata,
Como vive um sanhaçu!
Vosmecê já me conhece:
Eu sou o Jeca Tatu!

Com toda essa má piáge,
Vosmecê, Seu Senadô,
Nunca, um dia, se alembrô,
Que, lá naquelas parage,
A gente morre de fome
E de sêde, sim sinhô!

Vosmecê só abre o bico,
Pra cantá, como um cancão,
Quando quer fazê seu ninho,
Nos gáio duma inleição!

Vosmecê, que sabe tudo,
É capaz de arrespondê
Quando é que se ouve,
Nos mato,
O canto do zabelê?

Em que hora é que o macuco
Se põe-se mais a piá?
E quando é que a jacutinga
Tá mió de se caçá?
Quando o uru, entre as foiage,
Sabe mais assubiá?

Qualé, de todas as arve,
A mais direita, empinada?
A que tem o pau mais duro,
E a casca mais incorada?

Hein?

Vosmecê não sabe quá é
A madeira que é mais boa,
Pra se fazê uma canôa!

Mecê, no meio das tropa,
Dos cavalo, Seu Doutô,
Oiando pros animá,
Sem ver um só se movê,
Não é capaz de escoiê
Um cavalo iquipadô!

Eu queria ver mecê,
No meio de uma burrada,
Somente por um esturro,
Dizê, em conta ajustada,
Quantos ano, quantas manha,
Quantos fio tem um burro!

Mecê só sabe de leis,
Que se faz com as duas mão!
Mas, porém, não sabe as leis
Da Natureza, e que Deus
Fez pra nós, com o coração!

Mecê não sabe cantá,
Mais mió que um curió,
Gemendo à beira da estrada!
Mecê não sabe escrevê,
Num papé, feito de terra,
Quando a tinta é a do suó,
E quando a pena é uma enxada!

Se mecê não sabe disso,
Não pode me arrespondê:
Óia aqui, Seu Conseiêro:
Deus não fez as mão do home,
Somente pra ele escrevê

Vosmecê é um Senadô,
É um Conseiêro, é um Doutô,
É mais do que um Imperadô,
É o mais grande cidadão,
Mas, porém, eu lhe garanto,
Que nada disso seria,
Naquelas mata bravia,
Das terra do meu Sertão.

A miséria, Seu Doutô,
Também a gente consola.
O orgúio é que mata a gente!
Mecê quer ser presidente?
Eu só quero ser...
Rocêro e tocadô de viola!

Mecê tem todo direito
De ganhá cem mil por dia!
Pra mió podê falá.
Mas, porém, o que não pode
É a ignorânça insultá,
A gente, Seu Conseiêro,
Tá cansado de esperá!

Mecê diz que a gente
Vive com a mão no queixo,
Assentado, sem fazê caso das coisa
Que mecê diz no Senado.
E vosmecê tem razão!
Se nós tudo é analfabeto,
Como é que a gente vai lê
Toda aquela falação?

Preguiçoso? Maracêro?
Não sinhô, Seu Conseiêro!

É pruquê mecê não sabe
O que seja um boiadêro
Criá com tanto cuidado,
Com amor e alegria,
Umas cabeça de gado...
E, dispois, a epidemia
Carregá tudo, co’s diabo,
Em menos de quatro dia!...

É pruquê mecê não sabe
O trabáio desgraçado
Que um home tem, Seu Doutô,
Pra encoivará um roçado...
E quando o ouro do milho
Vai ficando embunecado,
Pra gente, entonce, colhê,
O milho morre de sêde,
Pelo sol esturricado,
Sequinho, como mecê!

É pruquê mecê não sabe
O quanto é duro, um pai sofrê,
Vendo seu filho crescendo,
Dizendo sempre:
Papai, vem me ensiná o ABC!

Se eu soubesse, meu sinhô,
Escrevê, ler e contá,
Entonce, sim, eu houvera
De sabê como assuntá!
Talvez mecê não deixasse
O sertanejo morrendo,
Mais pior que um animá!

Pru mode a politicaia,
Mecê quer que um home saia
Do Sertão, pra vim... votá?...
Em Joaquim, Pedro, ou Francisco,
Quando vem a ser tudo iguá?...

Preguiçoso? Madracêro?
Não!.. Não sinhô, Seu Conseiêro!

Mecê não sabe de nada!
Mecê não sabe a corage
Que é preciso um home ter,
Pra corrê nas vaquejada!
Vossa Incelênça não sabe
O valô de um sertanejo,
Acerando uma queimada!

Vosmecê tem um casarão!
Tem um jardim, tem uma chácara.
Tem um criado de casaca
E ganha, todos os dia,
Quer chova, quer faça sol,
Só pra falá... cem mil réis!

Eu trabáio o ano inteiro,
Somente quando Deus quer!
Eu vivo, no meu roçado,
Me esfarfando, como um burro,
Pra sustentá oito filho,
Minha mãe, minha muié!

Eu durmo em riba de um couro,
Numa casa de sapé!
Mecê tem seu... automóve!
Eu, pra vir no povoado,
Ando dez légua, de pé!

O sol, teve tão ardente,
Lá pras banda do sertão,
Que, em menos de quinze dia,
Perdi toda a criação!

Na semana retrasada,
O vento tanto ventou,
Que a paia, que cobre a choça,
Foi pro’s mato... avuô!

Minha muié tá morrendo,
Só por falta de mezinha!
E por falta de um doutô!
Minha filha, que é bonita,
Bonita, como uma flor,
Seu Doutô, não sabe ler!

E o Juquinha, que inda tá
Cherando mesmo a cuêro,
E já pontêia uma viola...
Se entrasse lá, pra uma escola,
Sabia mais que mecê!

Preguiçoso? He... Madracêro?
Não... Não sinhô, Seu Conseiêro!...

Mecê diga aos companhêro,
Que um cabra, o Zé das Cabôca,
Anda cantando esses verso,
Que hoje, lá no sertão,
Avôa, de boca em boca:

(cantado)

Eu plantei a minha roça,
O tatu tudo comeu!
Plante roça, quem quiser,
Que o tatu, hoje, sou eu!

Vosmecê sabe onde tá o buraco
Adonde véve o tatu esfomeado?
Hein?... Tá nos palácio da Côrte,
Dessa porção de ricaço,
Que fez aquele palácio,
Com o sangue do desgraçado!

Mecês tem rio de açude,
Tem os doutô da higiene,
Que é pra cuidar da saúde...
E nós?... O que tem? Arresponda!

No tempo das inleição,
Que é o tempo da bandaiêra,
Nós só tem uma cangaia,
Que é pra levar todas porquêra,
Dos Doutô Politicaia!...

Sinhô Doutô Conseiêro,
De leis, eu não sei de nada!
Meu direito é minha enxada,
Meu palácio é de sapé!
Quem dá leis para a família
É a minha boa muié!

Mecê quer ser presidente?
Apois, seja!
Apois seja, meu Patrão!
A nossa terra, o Brasí,
Já tem muita inteligência,
Muito home de sabença,
Que só dá pra... ó, espertaião!
Leva o Diabo, a falação!
Pra salvar o mundo inteiro,
Abasta ter... coração!

Pro’s home de inteligência,
Trago comigo essa figa:
Esses home tem cabeça.
Mas, porém, o que é mais grande
Do que a cabeça... é a barriga!

Seu Conseiêro... um consêio:
Deixe toda a birbioteca dos livro!
E, se um dia, mecê quiser
Passar uns dia de fome,
De fome e, talvez de sêde,
E dormir lá, numa rede,
Numa casa de sapê,

Vá passar comigo uns tempo,
Nos mato do meu sertão,
Que eu hei de lhe abrir a porta
Da choça... e do coração!

Eu volto pros matagá...
Mas, porém, ouça primeiro:
Mecê pode nos xingar,
Chamar nós de madraçêro.
Pruquê nós, Seu Conseiêro,
Não quer ser mais bestaião!
Não!.. Enquanto os home de riba
Deixar nós tudo mazombo,
E só cuidar dos istambo,
E só tratar de inleição...

Seu Conseiêro há de ver,
Pitando seu cachimbão,
O Jeca-Tatu se rindo,
Se rindo... cuspindo
Sempre cuspindo,
C’o queixo em riba da mão!

Eu sei que sou um animá,
Eu nem sei mesmo o que eu sou.
Mas, porém, eu lhe garanto
Que o que mecê já falou,
E o que ainda tem de falar,
O que ainda tem de escrevê,
Todo, todo o seu saber,
E toda a sua saranha...
Não vale uma palavrinha,
Daquelas coisa bonita,
Que Jesus, numa tardinha,
Disse, em riba da montanha!...



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       Poema declamado por Rolando Boldrin

A Morte de Nanã (Patativa do Assaré)

Eu vou contá uma história
Que eu não sei como comece,
Pruquê meu coração chora,
A dor no meu peito cresce,
Aumenta o meu sofrimento
E fico ouvindo o lamento
De minha alma dolorida,
Pois é bem triste a sentença,
De quem perdeu na existência
O que mais amou na vida.

Já tô véio, acabrunhado,
Mas em riba deste chão,
Fui o mais afortunado
De todos filhos de Adão.
Dentro da minha pobreza,
Eu tinha grande riqueza:
Era uma querida filha,
Porém morreu muito nova.
Foi sacudida na cova
Com seis ano e doze dia.

Morreu na sua inocência
Aquele anjo encantadô,
Que foi na sua existência,
A cura da minha dor
E a vida do meu vivê.
Eu beijava, com prazê,
Todo dia de manhã,
Sua face pura e bela.
Era Ana o nome dela,
Mas eu chamava Nanã.

Nanã tinha mais primô
Do que as mais bonita jóia,
Mais linda do que as fulô
De um tá de Jardim de Tróia
Que fala o doutô Conrado.
Seu cabelo cacheado,
Preto da cor de veludo.
Nanã era meu tesouro,
Meu diamante, meu ouro,
Meu anjo, meu céu, meu tudo.

Pelo terreiro corria,
Sempre se rindo e cantando,
Era nutrida e sadia,
Pois, mesmo se alimentando
Com feijão, milho e farinha,
Era gorda, bem gordinha
Minha querida Nanã,
Tão gorda que reluzia.
O seu corpo parecia
Uma banana maçã.

Todo dia, todo dia,
Quando eu voltava da roça,
Na mais completa alegria,
Dentro da minha paioça
Minha Nanã eu achava.
Por isso, eu não invejava
Riqueza nem posição
Dos grande deste país,
Pois eu era o mais feliz
De todos filho de Adão.

Mas, neste mundo de Cristo,
Pobre não pode gozá.
Eu, quando me lembro disto,
Dá vontade de chorá.
Quando há seca no sertão,
Ao pobre falta feijão,
Farinha, milho e arroz.
Foi isso que aconteceu:
A minha filha morreu,
Na seca de trinta e dois.

Vendo que não tinha inverno,
O meu patrão, um tirano,
Sem temê Deus nem o inferno,
Me deixou no desengano,
Sem nada mais me arranjá.
Teve que se alimentá,
Minha querida Nanã,
No mais penoso maltrato,
Comendo caça do mato
E goma de mucunã.

E com as braba comida,
Aquela pobre inocente
Foi mudando a sua vida,
Foi ficando diferente.
Não se ria nem brincava,
Bem pouco se alimentava
E enquanto a sua gordura
No corpo diminuía,
No meu coração crescia
A minha grande tortura.

Quando ela via o angu,
Todo dia de manhã,
Ou mesmo o rôxo bêjú
Da goma da mucunã,
Sem a comida querer,
Oiava pro de comê,
Depois oiava pra mim
E o meu coração doía,
Quando Nanã me dizia:
Papai, ô comida ruim!

Se passava o dia inteiro
E a coitada não comia,
Não brincava no terreiro
Nem cantava de alegria,
Pois a falta de alimento
Acaba o contentamento,
Tudo destrói e consome.
Não saía da tipóia
A minha adorada jóia,
Enfraquecida de fome.

Daqueles óio tão lindo
Eu via a luz se apagando
E tudo diminuíndo.
Quando eu tava reparando
Os oínho da criança,
Vinha na minha lembrança
Um candieiro vazio
Com uma tochinha acesa
Representando a tristeza
Bem na ponta do pavio.

E, numa noite de agosto,
Noite escura e sem luá,
Eu vi crescer meu desgosto,
Eu vi crescer meu pená.
Naquela noite, a criança
Se achava sem esperança.
E quando veio o rompê
Da linda e risonha aurora,
Faltava bem poucas hora
Pra minha Nanã morrê.

Por ali ninguém chegou,
Ninguém reparou nem viu
Aquela cena de horrô
Que o rico nunca assistiu,
Só eu e minha muié,
Que ainda cheia de fé
Rezava pro Pai Eterno,
Dando suspiro magoado
Com o seu rosto moiado
Das água do amô materno.

E, enquanto nós assistia
A morte da pequenina,
Na manhã daquele dia,
Veio um bando de campina,
De canário e sabiá
E começaram a cantá
Um hino santificado,
Na copa de um cajueiro
Que havia bem no terreiro
Do meu rancho esburacado.

Aqueles pássaro cantava,
Em louvô da despedida,
Vendo que Nanã deixava
As miséria desta vida.
Pois não havia recurso,
Já tava fugindo os pulso.
Naquele estado mesquinho,
Ia apressando o cansaço,
Seguindo pelo compasso
Das música dos passarinho.

Na sua pequena boca
Eu vi os lábio tremendo
E, naquela aflição louca,
Ela também conhecendo
Que a vida tava no fim,
Foi arregalando pra mim
Os tristes oinho seu,
Fez um esforço ai, ai, ai,
E disse: “abença papai!”
Fechou os ói e morreu.

Enquanto finalizava
Seu momento derradeiro,
Lá fora os pássaro cantava,
Na copa do cajueiro.
Em vez de gemido e chôro,
As ave cantava em coro.
Era o bendito perfeito
Da morte de meu anjinho.
Nunca mais os passarinho
Cantaram daquele jeito.

Nanã foi, naquele dia,
A Jesus mostrá seu riso
E aumentá mais a quantia
Dos anjo do Paraíso.
Na minha imaginação,
Caço e não acho expressão
Pra dizê como é que fico.
Pensando naquele adeus
E a culpa não é de Deus,
A culpa é dos home rico.

Morreu no maió maltrato
Meu amô lindo e mimoso.
Meu patrão, aquele ingrato,
Foi o maió criminoso,
Foi o maió assassino.
O meu anjo pequenino
Foi sacudido no fundo
Do mais pobre cemitério
E eu hoje me considero
O mais pobre deste mundo.

Soluçando, pensativo,
Sem consolo e sem assunto,
Eu sinto que inda tô vivo,
Mas meu jeito é de defunto.
Envolvido na tristeza,
No meu rancho de pobreza,
Toda vez que eu vou rezá,
Com meus joêio no chão,
Peço em minhas oração:
Nanã, venha me buscá!






           Poema declamado por João Batista Cidrão 

Sonho de Sabiá - João Batista de Siqueira (cancão)

Um sabiá diligente
Voou pela vastidão
Mas por inexperiente
Caiu em um alçapão.
Depois de aprisionado
Ficou mais martirizado
Pensando no seu filhinho.
Implume sem alimento
Exposto à chuva e ao vento
Sem poder sair do ninho.

Deram-lhe por seu abrigo
Uma pequena gaiola
Num casebre de um mendigo
Que só comia de esmola.
Só vivia cochilando
Com certeza imaginando
Sua liberdade santa.
Ia cantar não podia
Que a sua voz se perdia
Logo ao sair da garganta.

Tornou-se a pena cinzenta
No rigor do seu castigo
Na saleta fumarenta
Da casa do tal mendigo.
Triste sempre arrepiado
Neste viver desolado
Ia um mês, vinha outro mês
Assim completou um ano
Sentindo seu desengano
Nunca cantou uma vez.

Depois uma tarde inteira
O pobre do passarinho
Sonhou que ia à palmeira
Onde tinha feito o ninho.
Olhava em frente às campinas
Via por trás das colinas
A natureza sorrindo.
Ao sentir a liberdade
Pensou ser realidade
Sem saber cantou dormindo.

Depois sonhou que voltava
À terra dos braunais
Por onde sempre cantava
Junto aos outros sabiás.
Voava nas ribanceiras
Pousava nas laranjeiras
Olhando o clarão do dia.
Voava através do monte
Voltava a beber na fonte
Que todas manhãs bebia.

No sonho via as favelas
Criadas nos carrascais
Voou baixo, pousou nelas
Cantou os seus madrigais
Voltou, colheu os orvalhos
Que gotejavam dos galhos
Dos frondosos jiquiris.
Alegre abria a plumagem
Pra receber a bafagem
Das manhãs do seu país.

Foi à terra dos palmares
Atravessou toda flora
Voou por todos lugares
Que tinha voado outrora.
Passou pelos mangueirais
Entre outros sabiás
Cantou sonora canção.
O seu som melodioso
Estava mais pesaroso
Devido a sua emoção.

Viu a vinda do inverno
Nos quadrantes da paisagem
Ouviu o sussurro terno
Do bulício da folhagem.
Cantou todo arrebol
O brilho morno do sol
Morrendo nos altos cumes.
Sentia quando cantava
Que seu coração chorava
Com mais tristeza e queixumes.

Sonhou catando sementes
Num campo vasto e risonho
Se sentia tão contente
Que sonhou que fosse um sonho.
Olhava pra vastidão
Tocava em seu coração
Um regozijo profundo
Todas delícias sentia
Às vezes lhe parecia
Vivendo fora do mundo.

Voou por entre os verdores
Atravessou as searas
Cantou pelos resplendores
Das manhãs frescas e claras.
Passou pelo campo vago
Bebeu das águas do lago
Pousou sobre os arvoredos.
Entrou pelo bosque escuro
Aí sonhou um futuro
Tão triste que teve medo.

Depois sonhou que estava
Trancado em uma gaiola
Ouvindo alguém que cantava
Na porta pedindo esmola.
Ao despertar de momento
Reparou seu aposento
Ouviu falar o mendigo.
Fechou os olhos pensando
Sentiu seu íntimo chorando
No rigor do seu castigo.

Ainda em vão procurava
Sair daquela prisão
Seu olhar denunciava
Piedade e compaixão.
Ao pensar na liberdade
A mais pungente saudade
Devorava o peito seu
Assim o cantor da mata
Ferido da sorte ingrata
No outro dia morreu.


Poeta natural de São José do Egito/PE (1912-1982)