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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O Iracundo

(dance)Já levanta de mau-humor
Nervoso, agressivo, puto
Só por ter com ele cruzado
Tasca no gato um chuto
E se a mulher acha ruim
Maria da Penha leva um susto .

Se irrita se tá atrasado
Ou se mais cedo acordou
Se a mulher pôs pra lavar
A meia que ontem ele usou
Se ela gastou mais um pouco
E até se economizou!

Por tudo ele se aborrece
Até se um mimo ganhou
Porque cisma que a pessoa
Pensa que assim o comprou
Mas se presenteia a alguém
Vixe... ai de quem não gostou!

Raivoso de dar é coice
E vive só reclamando
Chia que só uma chaleira
Quando não tá resmungando
E até sonhando o danado
Tá lá na cama bufando.

Se estressa no meio da rua
Se um guia quase parado
E xinga a quem acelera
A quem nele anda colado
E se lhe falha a buzina 
Pense num cabra irado!

Mas quer ver ficar pianim?
Se encontra o chefe zangado
Porque brigou com a mulher
Mas também é mui estressado
E nele então descarrega
O que lhe ficou entalado.

Mas lhe falta é educação
Que o estress só faz agravar
E se não for um mal da mente
Deve é se penitenciar
Pois, mais que a ele, sua ira
Aos outros irá perturbar.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O Luxurioso

(dance)Devasso, salaz, sensual
Libertino, licencioso
Impudico, pervertido
Lúbrico, libidinoso
Lascivo, concupiscente
Dissoluto, voluptuoso.

Um mói de nome esquisito
Mas com sentidos iguais
Pr'os sádicos, masoquistas
Hetero ou homossexuais
Pedófilos, necrófilos
E os das trocas de casais.

Pra que os julguem doentes
Tais termos fazem sentido
Se rico, um viés doutoral
Pobre, jargão de bandido
Por isso tantos os termos
Do vagabundo ao metido.

Até nos locais sagrados
Do viço o apelo se sente
Se o sacerdote é pedófilo
O chamam concupiscente
Lascivo ou libidinoso
Que é tudo termo decente.

Do mesmo modo se trata
O luxuriante burguês
Que se o TER diferencia
Safadeza ele não fez
Pois se há dois pesos pra tudo
Dois pesos tem o português.

Quem é safado é o vulgo
O assalariado, patrão
Sem-vergonha, estuprador
Tarado, proxenetão
O rico é que é sensual
E nunca morre na mão.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O Avarento

(dance)Quem só ganha pra juntar
Como diz o poetinha
Garante que economiza
Não é avarento nadinha
Mas das tralhas que possui
Não põe fora u'a só coisinha.

Um pneu véio careca
Um toca-fita quebrado
Chinelo véi sem correia
Toco de vela guardado
Mói de remédio vencido
E tudo inventariado!

Na missa é que finge mostrar
Ser como quem o dízimo pôs
Primeiro a hóstia recebe
Pra ir à caixinha depois:
Põe duas moedas de um
E tira uma nota de dois.

Mão-de-vaca, unha-de-fome
Quando morrer, meu patrão
Discórdia é o que vai deixar
Que seu fim é o da canção:
Cair-lhe "por cima uma lage"
E lá "embaixo a escuridão".

A décima a seguir é do cantador repentista Dimas Bibiu, poeta nascido em São José do Egito - PE

Eu não creio em quem faz economia
Passa fome com pena de gastar
Vê um pobre faminto e não lhe dá
Um pedaço do pão de cada dia;
Tem dinheiro, tem terra e vacaria
Nega um copo de leite a uma criança,
Junta tudo que tem, ainda avança
Pra tomar um pedaço do alheio,
Pode até se salvar, mas eu não creio
Só se Deus der um toque na balança. 

O Vaidoso

(dance)Tá pendurado, devendo
E só quer ter carro do ano
Assim mesmo é o vaidoso
Vive mais no auto-engano
Fazendo um teatro da vida
Até cair-lhe o pano.

Sua caixa dos correios
É lotada de cobrança
Vivem atrás do sujeito
Ligando pra vizinhança
Mas tá num bom restaurante
Tomando um vinho da França.

Usa só roupa de grife
Anel de ouro entalhado
Só cheira a perfume francês
E anda de carro importado
E o oficial de justiça:
-- Dou fé que tá penhorado.


Quer ser admirado assim:
Por coisa tola e vã
E achando que o merece
A sua sorte é malsã
Mas pro vaidoso há remédio:
E é se deitar num divã.

Pois se vive de aparências
E acha que isso lhe basta
Que assim as portas se abrem
E desse pensar não se afasta
No fim das contas vai ver
Que não tem nada -- e só gasta!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Politicaia

(dance)Ô cumpade, diacho é isso?
Qu'istória comprida é essa?
Só pode ser um comício
Com tanto riso e promessa
Lá vem de novo os dotô
Discursano iguá aos atô
Quando encena uma peça.

E não é teatro sem par
Que os home sabe fazê?
Diz que vão 'representá'
O povo lá no podê
Mas pra falá com razão
Essa representação
É bem a arte de Molière.

Os traste são dessas laia
Que não se acanha com nada
Mermo debaixo de vaia
Véve dando risada
É que deboche e ironia
Mentira e hipocrisia
É a parte mais encenada.

É P disso e P daquilo
Tanto P de encher o saco
Politicaia sem estilo
Parentela de macaco
Ficam pulando os partido
Nos PQP 'stão metido
Não pulam se o P não é fraco.

E que programa eles têm
Os parasita infiel?
Se é fiel é que convém
Pra se manter no papel
E o que esses home programa?
Dinheiro, podê e fama
Prestígio de coronel.

Nos currá eleitorá
O pobe do analfabeto
Só tem a palavra pra dar:
Qu'é a garantia dos honesto
E dando o voto ao 'cidadão'
Lhe dá um aperto de mão
Pra confirmá o seu gesto.

E assim empenhado seu voto
Não pode vortá atrás
Que é desonra e desgosto
Traição infame demais
Entonce o aproveitadô
Inda pede aos eleitô
Pra ser cabo eleitorais.

Ter palavra é respeitá
A si mermo sendo honesto
E ciente de votá
Sem consciência do gesto
O pobezim só convém
Se, ignorante, tombém
Ignorar o protesto.

Inleição pra esses coitado
É tempo de festejá
De andar abraçado
Com o prefeito do lugá
De espaiá que bebeu
Com o deputado que deu
Camisa e chinelo pra andá.

Política, meu patrão
É essa politicage
É comer comissão
E mais outras vantage
Ser mais um representante
Das elite dominante
No bê-a-bá da sacanage.

O cantador repentista João Furiba, poeta nascido em Taquaritinga do Norte - PE, em 1927, segundo consta do excelente livro POETAS ENCANTADORES do cantador e poeta Zé de Cazuza, glosou em decassílabo o mote que lhe fora dado em um festival de cantoria em Patos, na Paraíba:

Eu recordo que um certo candidato
Lá em casa chegou de cara lisa,
Prometeu-me uma calça, uma camisa,
Um chapéu, a gravata e um sapato,
Na parede pregou o seu retrato,
E eu lhe disse: meu voto é do senhor,
Prometeu um pirão de corredor,
Não deu nem a farinha do pirão,
Com três meses depois da eleição
Ninguém lembra o que disse ao eleitor.  

A mão que nunca tocou






Na lei do bem me criei
Praticando a caridade
Esmola nunca neguei
Se era por necessidade
Sei que o bastante não dei
Mas dei de boa-vontade.

Fui educado no mato
Sem notícias de jornal
Palavrão é desacato
Deve o bem vencer o mal
Vilania e boato
Corriam só na capital.

Nessa inocência vivi
Até me tornar homem feito
E quando meus pais eu perdi
E a seca não tinha mais jeito
Deixei o sertão e parti
Querendo um mundo perfeito.

E arribei do interior
Levando muita saudade
No peito um vazio, uma dor
Na mala bastante humildade
O sonho de ser um doutor
Porém sem qualquer vaidade.
                
II                 

Mas certo alçapão me pegou
E logo perdi a razão
Alguém me aconselhou
Pr’eu fechar primeiro a mão
Não praticar o amor
E endurecer o coração.

Cidade grande é assim:
O egoísmo faz a lei
Levaram tudo de mim
Se a alma foi junto, não sei
E foi o começo do fim
Do bem moral que herdei.

Misto de medo, fraqueza
Sentimento de injustiça
Abalou-me a fortaleza
E a revolta e a cobiça
Faziam minha cabeça
Pegando um’alma noviça.

E me envolvi na miséria
Daquele inferno de Dante
A moeda deletéria
Com seu poder fascinante
Escravizando a matéria
Corrompe a alma da gente.

E fui me tornando “urbano”
Embrutecido, porém
E entre engano e desengano
Quis ser um milico também
E acabei como um tirano
Sem ter pena de ninguém

O vírus da violência
Pegou da lei o soldado
E a ninguém dava indulgência
Mas todo o mal vinha dobrado
E pressentindo a indigência
Quisera o pedinte finado.

III

Só que o espelho não quebrava
E nele me vi com desgosto
Quando um infeliz me abordava
Pedindo, eu virava o rosto
E dizia que não dava
Pra ninguém tomar o gosto.

E parecia até desculpa
Se eu não estivesse de esmola
Pois dar de mão, quem tinha culpa?
Na calçada d’uma escola
A criança que um peito chupa
E a outra que cheira cola.

E todo dia eu passava
Na calçada da escola
A mesma criança mamava
A outra cheirava cola
A mãe a mão estirava
Eu dizia: não amola!

Disfarçando, ia apressado
Mal via o coitado no peito
O outro caído do lado
A mãe sonolenta, sem jeito
O do seio sempre calado
O do solo sempre no leito.

(Diverso é com um pobre cão
Agonizando na rua
Pois, detida, u’a multidão
Parece gozar a morte sua
Mas como se fosse do Cão
Foge d’um mendigo de rua.)

Se a cola expõe a caveira
O álcool aniquila com jeito
E se corta leite de peito
Sugá-lo – há quem o queira?
Pois, sem escolha, o sujeito
Por um tal peito morrera.

E era o que se lhes atirava
Como se puxasse o gatilho
E tanto a penúria espelhava
Que eu ria de mim – maltrapilho!
A mama depois consolava
O ardor na boca do filho.

Com o peito torturado
E um inútil gesto de mão
Com um moribundo abraçado
E o outro rolando no chão
A mãe penava um bocado
E ainda eu zombava, patrão!

IV                 

Mas u’a cruel realidade --
Que toma uma mãe por vadia
E diz que a miséria, em verdade
É culpa de sua apatia –
Jogou-me no rosto a verdade
De cujo espelho eu fugia.

E vi que o anjinho quase riu
“Gioconda” mais acanhado
Mas, triste, a flor não abriu
A flor do riso abortado
E o remorso aí me acudiu
Pra me evocar o passado.

A flor do riso inocente
No olhar, ia desabrochar
Não vingou, porque temente
Que um olhar a fosse pisar
E vi um olhar sorridente
Na flor da vida fechar.

Sim, ele ia rir no olhar!
A criança em mim é que viu
Pra logo depois se apagar
E pensei até que dormiu
Porque parou de chuchar
O peito que nunca o nutriu.

Quando voltei ao local
Querendo então ajudar
O do chão passava mal
A mãe idiota a olhar
No do peito um sepulcral
Silêncio eterno a lhe embalar.

A mãe recolheu sua mão
Que a minha tocar não ousou
Olhava vazio pro chão
Do chão o olhar não tirou
Talvez esperasse em vão
A mão que nunca tocou.