terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A mão que nunca tocou






Na lei do bem me criei
Praticando a caridade
Esmola nunca neguei
Se era por necessidade
Sei que o bastante não dei
Mas dei de boa-vontade.

Fui educado no mato
Sem notícias de jornal
Palavrão é desacato
Deve o bem vencer o mal
Vilania e boato
Corriam só na capital.

Nessa inocência vivi
Até me tornar homem feito
E quando meus pais eu perdi
E a seca não tinha mais jeito
Deixei o sertão e parti
Querendo um mundo perfeito.

E arribei do interior
Levando muita saudade
No peito um vazio, uma dor
Na mala bastante humildade
O sonho de ser um doutor
Porém sem qualquer vaidade.
                
II                 

Mas certo alçapão me pegou
E logo perdi a razão
Alguém me aconselhou
Pr’eu fechar primeiro a mão
Não praticar o amor
E endurecer o coração.

Cidade grande é assim:
O egoísmo faz a lei
Levaram tudo de mim
Se a alma foi junto, não sei
E foi o começo do fim
Do bem moral que herdei.

Misto de medo, fraqueza
Sentimento de injustiça
Abalou-me a fortaleza
E a revolta e a cobiça
Faziam minha cabeça
Pegando um’alma noviça.

E me envolvi na miséria
Daquele inferno de Dante
A moeda deletéria
Com seu poder fascinante
Escravizando a matéria
Corrompe a alma da gente.

E fui me tornando “urbano”
Embrutecido, porém
E entre engano e desengano
Quis ser um milico também
E acabei como um tirano
Sem ter pena de ninguém

O vírus da violência
Pegou da lei o soldado
E a ninguém dava indulgência
Mas todo o mal vinha dobrado
E pressentindo a indigência
Quisera o pedinte finado.

III

Só que o espelho não quebrava
E nele me vi com desgosto
Quando um infeliz me abordava
Pedindo, eu virava o rosto
E dizia que não dava
Pra ninguém tomar o gosto.

E parecia até desculpa
Se eu não estivesse de esmola
Pois dar de mão, quem tinha culpa?
Na calçada d’uma escola
A criança que um peito chupa
E a outra que cheira cola.

E todo dia eu passava
Na calçada da escola
A mesma criança mamava
A outra cheirava cola
A mãe a mão estirava
Eu dizia: não amola!

Disfarçando, ia apressado
Mal via o coitado no peito
O outro caído do lado
A mãe sonolenta, sem jeito
O do seio sempre calado
O do solo sempre no leito.

(Diverso é com um pobre cão
Agonizando na rua
Pois, detida, u’a multidão
Parece gozar a morte sua
Mas como se fosse do Cão
Foge d’um mendigo de rua.)

Se a cola expõe a caveira
O álcool aniquila com jeito
E se corta leite de peito
Sugá-lo – há quem o queira?
Pois, sem escolha, o sujeito
Por um tal peito morrera.

E era o que se lhes atirava
Como se puxasse o gatilho
E tanto a penúria espelhava
Que eu ria de mim – maltrapilho!
A mama depois consolava
O ardor na boca do filho.

Com o peito torturado
E um inútil gesto de mão
Com um moribundo abraçado
E o outro rolando no chão
A mãe penava um bocado
E ainda eu zombava, patrão!

IV                 

Mas u’a cruel realidade --
Que toma uma mãe por vadia
E diz que a miséria, em verdade
É culpa de sua apatia –
Jogou-me no rosto a verdade
De cujo espelho eu fugia.

E vi que o anjinho quase riu
“Gioconda” mais acanhado
Mas, triste, a flor não abriu
A flor do riso abortado
E o remorso aí me acudiu
Pra me evocar o passado.

A flor do riso inocente
No olhar, ia desabrochar
Não vingou, porque temente
Que um olhar a fosse pisar
E vi um olhar sorridente
Na flor da vida fechar.

Sim, ele ia rir no olhar!
A criança em mim é que viu
Pra logo depois se apagar
E pensei até que dormiu
Porque parou de chuchar
O peito que nunca o nutriu.

Quando voltei ao local
Querendo então ajudar
O do chão passava mal
A mãe idiota a olhar
No do peito um sepulcral
Silêncio eterno a lhe embalar.

A mãe recolheu sua mão
Que a minha tocar não ousou
Olhava vazio pro chão
Do chão o olhar não tirou
Talvez esperasse em vão
A mão que nunca tocou.

Um comentário:

Romero disse...

Eita poema arretado
Duvido que foi plagiado
Sou amigo do autor
É um cara bem dotado
Não pensem que é putaria
É apenas uma cortesia
De um fã admirado.
Romero Borges