domingo, 1 de maio de 2011

Glosas III


Ter-me foi puro acidente.
Você quis só o prazer.
Porém você foi decente:
Nada fez pr’eu não nascer,
Pois deixou com a natureza...
E sei que em sua rudeza
Nós não passamos de bicho,
Pois não sou mais que a andorinha.
Sua intenção, mamãezinha
Não foi jogar-me no lixo!

Vive mais pelo instinto.
Não cresceu sendo educada.
Pra parir, qualquer recinto
Serve a u’a pobre coitada.
A miséria é que embrutece.
A mulher surta, enlouquece,
E acha o latão um bom nicho
Pra deixar sua avezinha.
Sua intenção, mamãezinha
Não foi jogar-me no lixo!

É mais forte que a gente
O instinto de procriar.
Inda mais se for um ente
Que não pôde se educar.
Então ficou sem defesa,
E a força da natureza
Tirou você do seu eixo,
Porque se não eu não vinha.
Sua intenção, mamãezinha
Não foi jogar-me no lixo!

Na natureza é assim:
Não se resiste ao impulso.
Se um símio enjeita um sagüim
De seu meio não é expulso.
Pois o filhote é da vida
Que cuida em dar-lhe guarida.
Você não agiu por capricho.
A culpa não é sua nem minha.
Sua intenção, mamãezinha
Não foi jogar-me no lixo!

Mas agradeço a você
Que me deixou num latão,
Pr’eu então sobreviver
Nu’a triste contradição:
Pois hoje é já u’a carreira
Pobre viver da lixeira.
Então lhe atire um seixo
Quem não ofendeu criancinha.
Sua intenção, mamãezinha
Não foi jogar-me no lixo!

Muitos querem condenar:
--- É uma mãe desnaturada!
Mas se fossem você lá
Nu’a vida desesperada,
Louca de tanto sofrer?
Creio a pudessem entender...
Com a cruz mais leve eu a deixo
Pra poder levar sozinha.
Sua intenção, mamãezinha
Não foi jogar-me no lixo!

No fim, você me salvou;
Seu sacrifício não é vão,
Pois sua mão me entregou
A um catador bom irmão.
Isso talvez planejou
Pra o mundo me dar amor...
Ah! De você não me queixo,
Mas por você tô tristinha.
Sua intenção, mamãezinha
Não foi jogar-me no lixo!

A décima a seguir, que faz parte do poema O Menor Abandonado, foi glosada pelo violeiro repentista Sebastião da Silva, poeta nascido em Pilhõesinho - PB, em 1945.

Os culpados são os pais
Que por prazer lhe geraram,
Lhe confeccionaram
Com seus desejos venais,
Num dos atos mais brutais.
Depois do feto gerado
Nasceu e foi atirado
Na podridão da cidade.
Lamento a necessidade
Do menor abandonado.

Um comentário:

Romero Borges disse...

Almir,parabéns pelos versos!
Realmente muito sensatos e bem feitos.
Após a leitura fiquei a pensar: Meu Deus! como é que pode? Depois de carregar nove meses em seu ventre um ser tão frágil,tão dependente e tão seu, como se explicar um gesto desse tipo? Fiquei achando que:

A consciência falhou
Causando transtorno e dor
Mas na hora da decisão
De jogar o rebento fora
O coração em disparada
Amenizou a coisa errada
Foi gravidez não planejada
Mas a vida ela poupou.