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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Décima Espanhola IV

O camaleão no mato
É um lagarto astuto;
Quando sobe num arbusto
Ele é um mágico nato,
Pois seu sumiço é um fato
Que desafia caçador;
Mas um investigador,
Tendo um olhar acurado,
Vê o bichinho disfarçado
Do tronco, na mesma cor.

Décima Espanhola III

Não temo a quem já morreu:
Se fez mal, não pode mais;
Receio é o vivo demais,
Que fez mal e se escondeu;
E às vezes nem apareceu,
Tal qual um camaleão
Usou disfarce, mas não
Como arma de defesa,
Mas pra enganar sua presa
Numa tocaia, à traição.

Sextilhas de Bancada II

I
Uma donzela é uma flor
Recém-aberta pro dia;
Tão bela, cheirando tanto,
Que o seu perfume inebria;
Seu beijo é seiva de rosa,
O seio, u'a pétala macia.
II
Acho graça o embuá
Quando tocado, se enrola;
E a lesma lá na parede
Se gruda nela e não rola;
E se tentam mexer nela,
Dão com o poder de sua cola.
III

Fico com pena do cão
Quando na rua ele passa:
Os guris lhe atiram pedra,
E ele não é uma caça;
Tenho mais pena é de quem
Acha que isso tem graça.
IV
Um palhaço no Palácio:
Que coisa mais atrasada!
Quem já viu um deputado
Trabalhar dando risada?
Ao invés de fazer lei,
Promover é palhaçada.

Décima Espanhola II

Quase não mais se acorda,
Que o relógio deu defeito;
Na máquina véia do peito
Precisou de dar mais corda,
Isso por causa da engorda
Que enferrujou a safena;
A intervenção foi pequena;
Botaram u'a emenda que presta
Na veia da vida que resta
No coração da morena.

Sextilhas de Bancada I

I
Nove meses leva um bucho,
Que a mãe descansa é no nono;
Mas tem filho tão teimoso,
Que ela chega perde o sono;
Feito burro quando empaca,
Empata é a vida do dono.
II

Admiro a borboleta
Com duas asas iguais;
O desenho que tem na face,
Vê-se do lado de trás;
E suas formas e cores
São como as suas digitais.
III

Acho graça é o urubu
Com um olfato esquisito;
A carniça que o atrai,
Só com o fedor eu vomito;
E ele inda vai dividir
Com mosca, rato e mosquito.
IV

Fico muito impressionado
Com uma cabocla roceira;
Em pé, rebolando as ancas,
No vai e vem da peneira,
Ou com u'a trouxa na cabeça,
No sobe e desce ladeira.

Último Rodeio do Sertão


Certo peão afamado
De um curral ele cuidava,
As reses alimentava
Mais com palmas do roçado,
E havia nesse cercado
Um boi de muita pegada
Que em rodeio era u'a parada
Pois, derrubando os peões,
Conquistou dos campeões
Fama de rei da boiada.

Mas no meio do sertão
Bateu uma seca danada,
De toda terra plantada
Ficou só o que é desse chão,
Sem pé de milho, feijão,
Sem jerimum, nem mais nada,
E pra comer, a manada,
Depois que a palma acabou-se,
Com o cardeiro atracou-se,
Até o rei da boiada.


Esse peão afamado
Moço, forte, destemido,
Por nenhum touro vencido,
Vinha sendo derrubado,
Mas pelo boi do cercado,
O qual ele alimentava,
Puxava um banquinho, sentava
Tirando espinho do cardeiro
Para dar ao companheiro
Só o filé que o sustentava.


E ele gostava do boi,
Respeitava e admirava,
Dava banho e vacinava
Dizendo: Deus o abençoe,
E aquele boi, foi-não-foi,
Dando em seu rosto u'a lambida,
Deixava-o dar-lhe u'a subida,
Pra que sentisse o seu lombo,
E no seu próximo tombo
Demorasse na caída.


Porém algo inesperado
Aconteceu com os dois,
Foi quando chegou depois
Um peão enciumado
Para ajudar no cercado
E na lida do curral,
Pro cocho levando sal
E os pedaços de cardeiro
Livres daquele espinheiro
Perigoso pra o animal.


Aquele peão amigo,
Com quem o boi se apegara,
Com paciência, o adestrara
Pra separar o joio do trigo,
E se livrar do perigo
Dos espinhos do cardeiro,
Pois daria muito dinheiro,
Por ser um boi vencedor,
Não ao peão tratador,
Mas ao velho fazendeiro.


Aconteceu de uma vez
O fazendeiro ir olhar,
E no curral encontrar
Agonizando uma rês,
Por causa da estupidez
De um peão criminoso
Que pôs o cacto espinhoso
Intacto no coche marcado
Daquele boi afamado
E muito mais valioso.


E sabendo o fazendeiro
Que esse coche era cuidado
Pelo peão afamado,
Deu suas contas ligeiro,
E o peão traiçoeiro,
O culpado pelo mal,
Virou chefe do curral
Pra dar ao boi segurança,
E duplicou sua finança
Afastando seu rival.


Mas o boi sentia saudade
Do seu amigo leal,
Inda mais que o peão mau
O tratava com maldade,
Pois não lhe impunha a vontade
Que era amansá-lo pra si,
Pra no rodeio conseguir
Passar mais tempo montado
E então sair premiado,
Depois de ao júri iludir.


O fazendeiro enganado
Foi injusto sem saber,
E sem querer fez sofrer
A um peão bravo e honrado
Que partiu desconsolado
Sem conseguir entender
Como pôde acontecer
Aquele mal-entendido,
Pois que não era bandido,
Mas livrou o boi de morrer.


Pena que não teve chance
De contar esse segredo
Ao seu patrão que, tão cedo,
Sabendo do ingrato lance,
Mandou dizer-lhe: não avance,
Não vá à minha casa bater,
Pois não vai me convencer
Que enganou-se na sua lida,
Que boi não enjeita comida,
O outro é que viu, foi comer.


Mas no fundo o fazendeiro
Achava estranho o acidente,
Que um peão bravo não mente,
Mas ele ficou é cabreiro,
Pois era muito dinheiro
Que estava em jogo no caso,
E aquele boi, por acaso,
Lhe valia mais que amizade,
E sem saber da verdade
A vã suspeita deu azo.


E as coisas iam assim:
O peão bom magoado,
O boi um tanto amuado,
Cismado com o peão ruim,
E o fazendeiro, enfim,
Porque o crime não compensa,
Ouviu sobre a desavença
Do mau contra o bom peão
Da boca desse vilão
Delirando nu'a doença.


O fazendeiro notava,
Um tanto contrariado,
O boi bastante agitado
Quando por trás lhe chegava
Seu algoz que o acuava
Com uma vara de espetar,
Porque dizia se tratar
De um bicho bruto e feroz,
E quanto mais fosse atroz
Mais peões ia derrubar.


Mas o patrão o comparava
Com o peão que, de outro jeito,
Tratando o boi com respeito,
Seu bom humor conquistava,
Que medo o boi não dobrava,
Mas justamente assim
Agia o peão ruim
Tentando em vão dominá-lo
Pra poder então montá-lo
E lucrar muito no fim.


E aconteceu o esperado
Dia do famoso rodeio,
Era um milhão, sem rateio,
Para o melhor colocado,
Na arena, lado a lado,
Os dois peões iam montar,
E o judas: 'vem me abraçar,
Lhe desejo boa sorte,
Mas sendo a hora da morte,
Que ela venha é lhe buscar'.

O boi era o afamado
Valente boi do sertão,
Criado num árido chão
Mais com cardeiro espinhado,
Por que era o mais premiado
É um mistério da Natura,
Não era só musculatura,
Que força bruta não basta,
Força maior há que arrasta
Um boi à maior altura.

Lá no banco de apostas
O fazendeiro investia,
Dessa vez ele sentia
Que o boi lhe daria as costas,
Com as coisas assim já postas
Quis seguir seu coração,
Pois viu que agora um peão
Podia vencer o boi danado,
E com esse resultado
O dono não via tostão.

Enquanto muitos jogavam
As fichas todas no boi,
Só o mau peão é que foi
Atração dos que apostavam,
Porque eles todos notavam
Que o boi recuava ao vê-lo,
Então o peão ia detê-lo,
Pois quando o boi encarou,
Já no curral o acuou
Arrepiando-lhe o pêlo.

O fazendeiro também
Apostou num só peão,
Mas jogou foi o coração
No banco, em cada vintém,
E tudo ficaria bem
Se o peão do boi ganhasse,
Porém se ele fracassasse,
Tudo então estaria perdido,
E o seu boi seria vendido,
Talvez churrasco virasse.

O locutor começando
Chamou o peão malvado
Que já estava montado
No boi, e o ameaçando,
Com esporas o espetando,
E o boi nem mexer podia,
Que o curral que o prendia,
Não deixava-o se virar,
E o peão pra aproveitar,
Do boi tirava energia.

Quando a porteira se abriu,
O peão o nó arrochou,
O boi quase que arriou,
Mas o malvado o atingiu
De um jeito que não se ouviu
Um mugido tão sentido,
De um pulo o boi tinha partido,
Mas do algoz nem lembrava,
Que era de dor que pulava,
Pro peão ser aplaudido.

O que o peão não esperava
Era que um nó afrouxasse,
E do boi aliviasse
A dor que o subjugava,
Mas enfim o boi voltava
A gozar de força plena,
E fez toda aquela arena
Dar viva ao rei da boiada,
Depois que u'a bela patada
Tirou o peão de cena.

O locutor continuando
Chamou o peão afamado
Que aguardava, em reservado,
Desde um certo tempo, quando
A arena estava deixando,
Triste com a separação
Do amigo boi campeão,
O qual deixara saudade
E a esperança de, mais tarde
Poder tocá-lo sua mão.

E quando entrou no curral
Pra montar no boi do dia,
Só ele que não sabia
Qual o boi que, no mural
Diziam ser o arqui rival
Dos peões mais afamados,
Mas já com os pés apoiados
Pra o boi montar de uma vez,
Passando a mão em sua tez
Viu os olhos do boi molhados.

O boi o reconheceu,
Sentiu o amigo no toque,
E o peão com esse choque,
De alegre, um beijo lhe deu,
A luz que os envolveu
Dera aos dois u'a força nova,
Quando começou a prova
O boi então não pulava...
Mas com o amigo dançava
Simulando dar-lhe u'a sova.

Desse jeito o peão do bem
Conseguiu domar o boi,
E foi assim que ele foi
O campeão, e também
Pôs um milhão de vintém
No seu bolso, e ia saindo
Quando por trás vinha vindo
O peão mau pra atacá-lo,
Não deu pro dono avisá-lo,
Mas seu boi já ia partindo.

Deu tempo de o boi pegá-lo,
Com uma chifrada o jogou
Pra longe, e muito voou,
Caiu de boca num talo
De cardeiro, a espetá-lo,
Sorte que era bem novinho,
Mas já com um monte de espinho
Que fez um estrago medonho,
Ficou sem um olho o tristonho,
E no olho da rua, sozinho.

O fazendeiro correu
Para acudir o peão,
Mas só um corte na mão
Que do seu judas sofreu,
E o peão agradeceu,
Mas decidido falou:
'Tome o dinheiro que dou,
Que sei de sua precisão,
O senhor tem culpa não
Que o boi ganhar me deixou'.

Mas o peão não esperava
O fazendeiro chorar,
Nem dinheiro recusar,
Afora o boi que lhe dava,
Então o que se passava
Na cabeça do ex-patrão?
Pois com um bilhete na mão
Fez prova que apostou
Nesse peão que ganhou,
E ele também, um milhão.

Os dois assim entendidos
Apertaram as suas mãos,
E os receios que eram vãos
Foram todos esquecidos,
Foram substituídos
Por respeito e amizade,
Pois sabendo da verdade
Que o peão já lhe contara,
Do amigo se desculpara,
E o boi ganhou liberdade.