Veja ao vivo no Parque do Povo! Clic link no vídeo

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Martelo Agalopado IV

Vejo também violência do Estado
Negando assento a quem não tem terra.
Erra o governo que faz uma guerra
Mandando a polícia cumprir o mandado.
Erra a justiça por ter concordado
Com um latifúndio tão improdutivo.
São terras férteis mas sem um ser vivo
Que nelas se abrigue e mate sua fome.
Do chão deste mundo, o pobre só come
Se de alguma forma ele for cativo.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Martelo Agalopado III

O coração de uma morta pessoa
Sobreviveu para um receptor;
O homem que os órgãos doou por amor
Só tinha a sorte que não era boa;
Se ele morreu de uma queda à-toa
Doou o coração batendo perfeito,
Que foi num avião que deu um defeito
Matando aquilo que sobreviveu;
O coração do homem que morreu
Morreu antes de ir pra outro peito.


Imagine a ingrata frustração
Desse alguém que já tinha o peito aberto
Esperando o transplante que era certo,
Quando soube abortada a operação.
Pois um novo e saudável coração
A esperança não quis naquele leito;
E o sonho de um coração perfeito
No seu sono não mais apareceu;
O coração do homem que morreu
Morreu antes de ir pra outro peito.

Décima Espanhola VII

Pra agravar inda mais
A situação do réu
Que pega as moças e 'créu'
Abraçando elas por trás,
O delegado já faz
Mandar prender o bandido
Por todo crime ocorrido:
É roubo e estupro que empilha
Mais formação de quadrilha
Com eros, baco e cupido.

O Maior dos Viciados

Não há viciado no mundo
Que não queira ir mais a fundo
Em busca de mais prazer.
Mas é gozo passageiro
Daquele que é prisioneiro
E crê que isso é viver.


O vício só escraviza
Porque o prazer ameniza
As angústias e as dores:
O que causa sofrimento.
Tudo cai no esquecimento
Com o gozo dos sofredores.


Todo vício é prazeroso
Mas no fim ele é danoso
Porque causa sofrimento;
E quanto mais dê prazer,
Tanto maior é o sofrer
Com esse aprofundamento.


Vício causa prejuízo,
Dano ao bolso e ao juízo
Daquele que ficou fraco;
Pode ser homem ou mulher:
Pensa que sai se quiser
Quando afundar no buraco.


É ilusão se pensar
Que impune vai se livrar
De um vício já indomável;
O poder que o vício tem
Domina e faz seu refém
Quem se tornou vulnerável.


O fraco vicia ligeiro;
O forte cai prisioneiro
De um poderoso inimigo;
Todo vício escandaliza,
Nêgo se desmoraliza,
Perde a paz e o seu abrigo.


O maior dos viciados
Não está entre os tarados
Que são uns loucos, patrão;
Nem entre os inveterados
Bêbados, e os afamados
Jogadores de plantão.


O cabra mais viciado
Tá no dinheiro montado,
E não é o drogado não;
É o que fala em esperança,
Promete ao povo mudança,
E é um viciado ladrão.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Glosas VI

Um fusquinha eu dirigia
Escutando o toca-fita.
Eu tinha tomado u'a mardita
Que o par de pernas tremia;
A cabeça já pendia,
E pra estação eu parti.
Cruzei os trilhos, senti
Que de morrer escapei.
Parei, olhei e escutei
E aquele trem eu não vi.


Eu acampando ao relento
Debaixo d'um tamarindo,
Avistei um jovem vindo
Ligeiro num pé-de-vento.
Disse: eu vi o movimento
D'um disco voando ali.
Mas tudo o que descobri
Foi um balão que apontei.
Parei, olhei e escutei
E aquele trem eu não vi.


Passando em frente à capela
Um bispo estava pregando,
No seu sermão relembrando
Uma passagem singela.
Dizendo: a bíblia revela
Que o salvador vem aí.
Pra dentro me dirigi;
Pra não cansar me sentei.
Parei, olhei e escutei
E aquele trem eu não vi.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sextilhas de Bancada IV

Acho graça o eleitor
Que dá seu voto ao bacana;
O candidato lhe paga
Fiado um dedo de cana,
E o tira-gosto é depois,
Se ele vencer: u'a banana.


Admiro a centopeia
Com tanta perna pra andar;
Não tropeça uma na outra
Nem noutra vai se encostar;
O bicho é um trem esquisito
Sem trilho pra deslizar.


Acho graça o maribondo
Com seu ferrão de lascar;
Levando o bicho na bunda
Pra com a bunda atacar;
E é da vez que uma bunda
Pode a um sujeito ferrar.


Admiro o jabuti
Com o seu casco blindado;
Nele é que enfia a cabeça
Se se sente ameaçado;
E quer ver moleque ruim:
É quando o deixa virado.


Botando o dedo na sopa,
A sopa pega e azeda;
Se melar de sopa o chão,
Menino leva uma queda;
Mas se quebrar a munheca,
Com mulher vai morrer feda.