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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Confissão de Cabôco (Zé da Luz)

Seu doutô sou criminoso,
Sou criminoso de morte,
Tô aqui pra me entregá.
Vosmicê fique sabendo
Que a muié que traz a sorte
De atraiçoá o esposo
Só presta pra se matá.


Lhe peço um grande favô
Antes de vossa mercê
Me botá daqui pra fora:
É a licença do doutô
Pr´eu lhe contá minha estória.


Sinhô, doutô delegado,
Digo a vossa senhoria
Que inté ontem fui casado
Com a muié que em vida
Se chamou Rosa Maria.


Faz dez mês que nós morava
Como pobre, é verdade,
Mas a gente se sentia
Rico de felicidade.


Pras banda que nós morava
No lugá Chão da Cutia,
Morava também um cabra
Chamado Chico Faria.


Esse cabra mais pra trás
Tinha gostado de Rosa,
Chegaram inté a ser noivo,
Mas não fizeram a entrosa
Do casamento, pru mode
Mané urêia de bode
Que era padrim de Maria
Ter desmanchado essa prosa.


Entonce, Chico Faria,
Adispois que nós casamo,
Em conversa, às vez dizia
Que ainda me dava fim
Pra se casá com Maria.


Dessas coisa eu sabia
Mas nunca dei importância.
Tinha toda confiança
Na muié que eu amava
Ou mais mió adorava
Com toda minha sustança.


Dispois disso, o meu rijume
Era vivê trabaiando
Sem da muié ter ciúme.


A muié, por sua vez,
Não me dava cabimento
D’eu pensá que ela fizesse
Um dia um farsejamento.
Mas seu doutô tome tento
No resto da minha estória
Que o ruim chegou agora.


Se não me falta a memória,
Já faz assim uns três mês
Que o cabra Chico Faria,
Todo prosa, todo ancho,
Quase sempre, mais das vez,
Avisitava o meu rancho.


Por ali desconfiado,
Como quem qué e não qué,
Eu fui vendo que o malvado
Tentava minha muié.


Ou tentação ou engano,
Eu fui vendo a coisa feia,
Por derradeiro eu já tava
- Mosca detrás da urêia.


Os tempo foram passando
E o meu arreceiamento
Cada vez ia aumentando
Seu doutô, vá escutando!


Ontem já de tardezinha,
Meu cumpade Quinca Arruda
Me chamô pra nós dançá
Num samba lá na Varginha,
Na casa de Mestre Duda.


Mestre Duda é um cabôco,
Um tocadô de primeira,
É o emboladô de coco
Mais bom daquela ribeira.


Entonce, Rosa Maria,
Sempre gostou de sambá.
Mas porém, desconfiada,
Me disse já de noitinha
Que pro samba ela não ia,
Que tava muito enfadada,
Precisava se deitá...


Eu fiquei desconfiado
Com a preposta da muié.


Dispois que tomei café,
Quase puro, sem mistura,
Com a faca na cintura,
Fui pro samba, fui sambá.
Cheguei no samba, doutô,
Quem era que tava lá?
O cabra Chico Faria
Que, quando foi me avistando,
Foi logo me perguntando:
Cadê Sá Dona Maria?
Não veio não, pra dançá?


-Não sinhô, ficou em casa.
Pro Faria arrespondi.
Sentí entonce uma brasa,
Queimando meu coração.


Nunca mais pude tirá
As palavra desse cabra
Da minha imaginação.
Perdi o gosto da festa,
E não pude dançá não.
O cabra, por sua vez,
Não dançava, seu doutô,
De vez em quando me oiava
Com oiá de um traídô.


Meia noite, mais ou menos,
Se adespedindo dos povo,
Disse: - Adeus, que eu já vou.


Quando ele se arretirou,
Eu também me arretirei,
Atrás dele, sim sinhô.


Ele na frente, eu atrás,
Se o cabra andava depressa
Eu andava muito mais.
Noite escura como breu!
Nem eu avistava o cabra,
Nem o cabra via eu.
Sempre andando sempre andando
Ele na frente, eu atrás.


Já nem se escutava mais
A voz do fole tocando
Na casa do mestre Duda.


A noite tava mais preta
Que a consciência de Juda.


Sempre andando sempre andando
Eu fui vendo, seu doutô
Que o malvado ia tomando
Direção de minha casa
Minha casa sim sinhô
Já pertinho do terreiro
Eu me escondi por detrás
De um pé de trapiazeiro.


Abaixadinho, escondido
Prendi a respiração
Abri os óio, os ouvido
Pra mió ver e ouvir
Quá era sua intenção
Seu doutô repare bem
O cabra oiando pra trás
Do mesmo jeito que faz
O ladrão pra ver alguém
Não tendo visto ninguém
Na minha porta bateu.


De lá dentro uma voz
Bem baixinho arrespondeu
Ele entonce cá de fora:
‘Quem tá batendo sou eu’
De repente abriu-se a porta
Aí, seu doutô, nessa hora
A esperança tá morta
Tava morto meu amor
No escuro uma voz falou
Tá aqui seu Chico uma carta
Que a tempo tinha escrevido
Pra mandar pra vosmicê.


Por favô não leia agora
Vá simbora, vá simbora
Que quando chegar em casa
Tem muito tempo pra ler...


Quando minhas oiça ouviu
As palavra que Maria
Dizia pro desgraçado,
Eu fiquei amalucado,
Fiquei quase como um louco,
Ou mió, como um cabôco
Quando tá cheio de esprito.
Dum salto como um cabrito
Eu tava nos pés do cabra
E sem querê dei um grito:
-Miseráve! E arrastei
Minha faca da cintura.
Naquela hora, doutô,
Eu vi o Chico Faria
Na beira da seputura.
Mas o cabra teve sorte,
Sempre nessas circunstância
Os home foge da morte.


Dei de garra do papé,
O portadô da traição,
Machuquei nas minha mão
A honra, doutô, a honra,
Daquela falsa muié.


Dispois oiando pra carta
Tive pena, pode crê
De não ter aprendido a ler
Nas letra ali escrevida,
O que dizia Maria
Pro malvado traídô.


Tive pena, sim sinhô,
Mas que houvera de fazê,
Se nunca aprendí a ler?


Maria me atraiçoou,
Essa muié que um dia
Ajoeiada nos pé do altá,
Jurou em nome de Deus
Que enquanto tivesse vida
Houvera de me honrá
E me amá com todo amô.


Com perdão de seu doutô,
Quando vi o miseráve,
Na escuridão da noite,
Dos meus zóio se escondê,
Sem deixá nem sombra inté,
Entrei pra dentro de casa
Pra me vingá da muié.
Doutô, que hora minguada,
Maria tava ajoeiada,
Chorando com as mão posta,
Como quem faz oração...
Oiando pra eu pedia
Pelo Cálice, pela hóstia,
Pelo amô que eu lhe amava
Que eu não fizesse isso não.


Sem dizê uma palavra,
Agarrei das suas mão,
Levantei ela pra riba,
E enterrei inté o cabo,
O ferro da parnaíba
Por riba do coração.


Salvei a honra, doutô,
Salvei a honra, apois não.
Dispois que vi Maria
Cair sem vida no chão,
Vim falá com vosmicê,
Vim confessá o meu crime
E me entregá às prisão.


Se seu doutô não acredita
Se sou criminoso ou não,
Tá aqui a faca assassina
E o sangue nas minhas mão.
Como prova da traição,
Tá aqui a carta, doutô.
Lhe peço um grande favô.
Antes de vossa senhoria
Me mandá lá pras prisão,
Me leia aqui essa carta
Pr'eu sabê como Maria
Preparava a traição.


A CARTA
"Seu Chico. Chã-de-Cutia


Digo a vossa senhoria
Que só lhe faço essa carta
Pro sinhô ficá sabendo
Que eu não sou a muié
Que o sinhô tá entendendo.


Se o sinhô continuá
Com seus dibique atrevido,
O jeito que tem é contá
Tudo tudo a meu marido.
O sinhô fique sabendo
Que com seu descaramento
Não faz nunca eu quebrá
O sagrado juramento,
Jurado nos pés do Altá,
No dia do casamento.


Se o sinhô é enxerido
Encontrou uma muié forte,
O nome do meu marido
Eu honro inté minha morte!
Sou de vossa senhoria,
Sua criada Maria."


Doutô, doutô me arresponda
O que é que eu tô ouvindo.
Vosmicê tá lendo a carta,
Ou tá... tá me iludindo?
Doutô, meu Deus, doutô,
Maria tava inocente...
Mi arresponda, por favô!


-Inocente, sim sinhô.

Matei Maria inocente...
Pruquê, seu doutô, pruquê?
Matei Maria somente,
Pruquê não aprendi a ler.
Imagine agora o doutô
Quanto é grande o meu sofrê.
Sou duas vez criminoso.
Que castigo, que horrô!
Que crime não sabê ler!



        Poema declamado por Rolando Boldrin

Um comentário:

Iraine Santoro disse...

Um Senhor amigo meu na década de 90 me presenteou com esse poema sabendo do meu interesse por poesia.Adorei!!È lindo e extremamente interessante.Depois vi na internet(que procurei).Foi uma alegria enorme.Iraine Santoro.