quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A resposta do Jeca-Tatu (Catulo da Paixão Cearense)

Seu doutô, venho dos brêdo,
Só pra mode arrespondê
Toda aquela fardunçage
Que mecê foi escrevê!

Não teje mecê jurgando
Que eu sou algum cangussú!
Não sou não, Seu Conseiêro.
Sou norte, sou violêro
E vivo naquelas mata,
Como vive um sanhaçu!
Vosmecê já me conhece:
Eu sou o Jeca Tatu!

Com toda essa má piáge,
Vosmecê, Seu Senadô,
Nunca, um dia, se alembrô,
Que, lá naquelas parage,
A gente morre de fome
E de sêde, sim sinhô!

Vosmecê só abre o bico,
Pra cantá, como um cancão,
Quando quer fazê seu ninho,
Nos gáio duma inleição!

Vosmecê, que sabe tudo,
É capaz de arrespondê
Quando é que se ouve,
Nos mato,
O canto do zabelê?

Em que hora é que o macuco
Se põe-se mais a piá?
E quando é que a jacutinga
Tá mió de se caçá?
Quando o uru, entre as foiage,
Sabe mais assubiá?

Qualé, de todas as arve,
A mais direita, empinada?
A que tem o pau mais duro,
E a casca mais incorada?

Hein?

Vosmecê não sabe quá é
A madeira que é mais boa,
Pra se fazê uma canôa!

Mecê, no meio das tropa,
Dos cavalo, Seu Doutô,
Oiando pros animá,
Sem ver um só se movê,
Não é capaz de escoiê
Um cavalo iquipadô!

Eu queria ver mecê,
No meio de uma burrada,
Somente por um esturro,
Dizê, em conta ajustada,
Quantos ano, quantas manha,
Quantos fio tem um burro!

Mecê só sabe de leis,
Que se faz com as duas mão!
Mas, porém, não sabe as leis
Da Natureza, e que Deus
Fez pra nós, com o coração!

Mecê não sabe cantá,
Mais mió que um curió,
Gemendo à beira da estrada!
Mecê não sabe escrevê,
Num papé, feito de terra,
Quando a tinta é a do suó,
E quando a pena é uma enxada!

Se mecê não sabe disso,
Não pode me arrespondê:
Óia aqui, Seu Conseiêro:
Deus não fez as mão do home,
Somente pra ele escrevê

Vosmecê é um Senadô,
É um Conseiêro, é um Doutô,
É mais do que um Imperadô,
É o mais grande cidadão,
Mas, porém, eu lhe garanto,
Que nada disso seria,
Naquelas mata bravia,
Das terra do meu Sertão.

A miséria, Seu Doutô,
Também a gente consola.
O orgúio é que mata a gente!
Mecê quer ser presidente?
Eu só quero ser...
Rocêro e tocadô de viola!

Mecê tem todo direito
De ganhá cem mil por dia!
Pra mió podê falá.
Mas, porém, o que não pode
É a ignorânça insultá,
A gente, Seu Conseiêro,
Tá cansado de esperá!

Mecê diz que a gente
Vive com a mão no queixo,
Assentado, sem fazê caso das coisa
Que mecê diz no Senado.
E vosmecê tem razão!
Se nós tudo é analfabeto,
Como é que a gente vai lê
Toda aquela falação?

Preguiçoso? Maracêro?
Não sinhô, Seu Conseiêro!

É pruquê mecê não sabe
O que seja um boiadêro
Criá com tanto cuidado,
Com amor e alegria,
Umas cabeça de gado...
E, dispois, a epidemia
Carregá tudo, co’s diabo,
Em menos de quatro dia!...

É pruquê mecê não sabe
O trabáio desgraçado
Que um home tem, Seu Doutô,
Pra encoivará um roçado...
E quando o ouro do milho
Vai ficando embunecado,
Pra gente, entonce, colhê,
O milho morre de sêde,
Pelo sol esturricado,
Sequinho, como mecê!

É pruquê mecê não sabe
O quanto é duro, um pai sofrê,
Vendo seu filho crescendo,
Dizendo sempre:
Papai, vem me ensiná o ABC!

Se eu soubesse, meu sinhô,
Escrevê, ler e contá,
Entonce, sim, eu houvera
De sabê como assuntá!
Talvez mecê não deixasse
O sertanejo morrendo,
Mais pior que um animá!

Pru mode a politicaia,
Mecê quer que um home saia
Do Sertão, pra vim... votá?...
Em Joaquim, Pedro, ou Francisco,
Quando vem a ser tudo iguá?...

Preguiçoso? Madracêro?
Não!.. Não sinhô, Seu Conseiêro!

Mecê não sabe de nada!
Mecê não sabe a corage
Que é preciso um home ter,
Pra corrê nas vaquejada!
Vossa Incelênça não sabe
O valô de um sertanejo,
Acerando uma queimada!

Vosmecê tem um casarão!
Tem um jardim, tem uma chácara.
Tem um criado de casaca
E ganha, todos os dia,
Quer chova, quer faça sol,
Só pra falá... cem mil réis!

Eu trabáio o ano inteiro,
Somente quando Deus quer!
Eu vivo, no meu roçado,
Me esfarfando, como um burro,
Pra sustentá oito filho,
Minha mãe, minha muié!

Eu durmo em riba de um couro,
Numa casa de sapé!
Mecê tem seu... automóve!
Eu, pra vir no povoado,
Ando dez légua, de pé!

O sol, teve tão ardente,
Lá pras banda do sertão,
Que, em menos de quinze dia,
Perdi toda a criação!

Na semana retrasada,
O vento tanto ventou,
Que a paia, que cobre a choça,
Foi pro’s mato... avuô!

Minha muié tá morrendo,
Só por falta de mezinha!
E por falta de um doutô!
Minha filha, que é bonita,
Bonita, como uma flor,
Seu Doutô, não sabe ler!

E o Juquinha, que inda tá
Cherando mesmo a cuêro,
E já pontêia uma viola...
Se entrasse lá, pra uma escola,
Sabia mais que mecê!

Preguiçoso? He... Madracêro?
Não... Não sinhô, Seu Conseiêro!...

Mecê diga aos companhêro,
Que um cabra, o Zé das Cabôca,
Anda cantando esses verso,
Que hoje, lá no sertão,
Avôa, de boca em boca:

(cantado)

Eu plantei a minha roça,
O tatu tudo comeu!
Plante roça, quem quiser,
Que o tatu, hoje, sou eu!

Vosmecê sabe onde tá o buraco
Adonde véve o tatu esfomeado?
Hein?... Tá nos palácio da Côrte,
Dessa porção de ricaço,
Que fez aquele palácio,
Com o sangue do desgraçado!

Mecês tem rio de açude,
Tem os doutô da higiene,
Que é pra cuidar da saúde...
E nós?... O que tem? Arresponda!

No tempo das inleição,
Que é o tempo da bandaiêra,
Nós só tem uma cangaia,
Que é pra levar todas porquêra,
Dos Doutô Politicaia!...

Sinhô Doutô Conseiêro,
De leis, eu não sei de nada!
Meu direito é minha enxada,
Meu palácio é de sapé!
Quem dá leis para a família
É a minha boa muié!

Mecê quer ser presidente?
Apois, seja!
Apois seja, meu Patrão!
A nossa terra, o Brasí,
Já tem muita inteligência,
Muito home de sabença,
Que só dá pra... ó, espertaião!
Leva o Diabo, a falação!
Pra salvar o mundo inteiro,
Abasta ter... coração!

Pro’s home de inteligência,
Trago comigo essa figa:
Esses home tem cabeça.
Mas, porém, o que é mais grande
Do que a cabeça... é a barriga!

Seu Conseiêro... um consêio:
Deixe toda a birbioteca dos livro!
E, se um dia, mecê quiser
Passar uns dia de fome,
De fome e, talvez de sêde,
E dormir lá, numa rede,
Numa casa de sapê,

Vá passar comigo uns tempo,
Nos mato do meu sertão,
Que eu hei de lhe abrir a porta
Da choça... e do coração!

Eu volto pros matagá...
Mas, porém, ouça primeiro:
Mecê pode nos xingar,
Chamar nós de madraçêro.
Pruquê nós, Seu Conseiêro,
Não quer ser mais bestaião!
Não!.. Enquanto os home de riba
Deixar nós tudo mazombo,
E só cuidar dos istambo,
E só tratar de inleição...

Seu Conseiêro há de ver,
Pitando seu cachimbão,
O Jeca-Tatu se rindo,
Se rindo... cuspindo
Sempre cuspindo,
C’o queixo em riba da mão!

Eu sei que sou um animá,
Eu nem sei mesmo o que eu sou.
Mas, porém, eu lhe garanto
Que o que mecê já falou,
E o que ainda tem de falar,
O que ainda tem de escrevê,
Todo, todo o seu saber,
E toda a sua saranha...
Não vale uma palavrinha,
Daquelas coisa bonita,
Que Jesus, numa tardinha,
Disse, em riba da montanha!...



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       Poema declamado por Rolando Boldrin

3 comentários:

Helo disse...

Lindíssimo!

waleska vasconcelos disse...

Minha mãe me contava que essa resposta, foi para um comentário feito pelo ilustre Ruy Barbosa, sugerindo que o matuto é preguiçoso.

Silva disse...

Que maravilha de resposta!!!!