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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

As Proezas de João Grilo - João Martins de Athaíde (provável autor)

...
Certa vez chegou na Corte
Um mendigo esfarrapado
Com uma mochila nas costas
Dois guardas de cada lado
Seu rosto cheio de mágoa
Os olhos vertendo água
Fazia pena o coitado.

Junto dele estava um duque
Que veio denunciar
Dizendo que o mendigo
Na prisão ia morar
Por não pagar a despesa
Que fez por sua afoiteza
Sem ninguém lhe convidar.

João Grilo disse ao mendigo:
E como é, pobretão,
Que se faz uma despesa
Sem ter no bolso um tostão?
Me conte todo o passado
Depois de ter-lhe escutado
Lhe darei razão ou não.

Disse o mendigo: sou pobre
E fui pedir uma esmola
Na casa do senhor duque
E levei minha sacola.
Quando cheguei na cozinha
Vi cozinhando galinha
Numa grande caçarola.

Como a comida cheirava
Eu tive apetite nela
Tirei um taco de pão
E marchei pro lado dela.
E sem pensar na desgraça
Botei o pão na fumaça
Que saía da panela.

O cozinheiro zangou-se
Chamou logo seu senhor
Dizendo que eu roubara
Da comida seu sabor
Só por eu ter colocado
Um taco de pão mirrado
Aproveitando o vapor.

Por isso fui obrigado
A pagar esta quantia.
Como não tive dinheiro
O duque por tirania
Mandou trazer-me escoltado
Pra depois de ser julgado
Ser posto na enxovia.

João Grilo disse: está bem
Não precisa mais falar.
Então pergunto ao duque:
Quanto o homem vai pagar?
Cinco coroas de prata
Ou paga ou vai pra chibata
Não lhe deve perdoar.

João Grilo tirou do bolso
A importância cobrada.
Na mochila do mendigo
Deixou-a depositada
E disse para o mendigo:
Balance a mochila, amigo
Pro duque ouvir a zoada.

O mendigo sem demora
Fez como o Grilo mandou.
Pegou sua mochilinha
Com a prata balançou
Sem compreender o truque
Bem no ouvido do duque
O dinheiro tilintou.

Disse o duque enfurecido:
Mas não recebi o meu!
Diz o Grilo: sim senhor
E isto foi o que valeu.
Deixe de ser batoteiro
O tinido do dinheiro
O senhor já recebeu.

Você diz que o mendigo
Por ter provado o vapor
Foi mesmo que ter comido
Seu manjar e seu sabor.
Pois também é verdadeiro
Que o tinir do dinheiro
Represente seu valor.

Virou-se para o mendigo
E disse: estás perdoado
Leva o dinheiro que dei-te
Vai pra casa descansado.
O duque olhou para o Grilo
Depois de dar um estrilo
Saiu por ali danado.


II


A fama então de João Grilo
Foi de nação em nação
Por sua sabedoria
E por seu bom coração.
Sem ser por ele esperado
Um dia foi convidado
Pra visitar um sultão.

O rei daquele país
Quis o reino embandeirado
Pra receber a visita
Do ilustre convidado.
O castelo estava em flores
Cheio de grandes fulgores
Ricamente engalanado.

As damas da alta Corte
Trajavam decentemente.
Toda Corte imperial
Esperava impaciente
Ou por isso ou por aquilo
Para conhecer João Grilo
Figura tão eminente.

Afinal chegou João Grilo
No reinado do sultão
Quando ele entrou na Corte
Foi grande decepção.
De paletó remendado
Sapato velho furado
Nas costas um matulão.

O rei disse: não é ele
Pois assim já é demais!
João Grilo pediu licença
Mostrou-lhe as credenciais.
Embora o rei não gostasse
Mandou que ele ocupasse
Os aposentos reais.

Só se ouvia cochichos
Que vinham de todo lado
As damas então diziam
É esse o homem falado?
Duma pobreza tamanha
E ele nem se acanha
De ser nosso convidado.

Até os membros da Corte
Diziam num tom chocante:
Pensava que o João Grilo
Fosse um tipo elegante.
Mas nos manda um remendado
Sem roupa, esfarrapado
Um maltrapilho ambulante.

E João Grilo ouviu tudo
Mas sem dar demonstração
Em toda a Corte real
Ninguém lhe dava atenção.
Por mostrar-se esmolambado
Tinha sido desprezado
Naquela rica nação.

Afinal veio um criado
E disse sem o fitar:
Já preparei o banheiro
Para o senhor se banhar.
Vista uma roupa minha
E depois vá pra cozinha
Na hora de almoçar.

João Grilo disse: está bem
Mas disse com seu botão
Roupas finas trouxe eu
Dentro do meu matulão.
Me apresentei rasgado
Para ver nesse reinado
Qual era a minha impressão.

João Grilo tomou seu banho
Vestiu a roupa de gala.
Então muito bem vestido
Apresentou-se na sala.
Ao ver seu traje tão belo
Houve gente no castelo
Que quase perdia a fala.

E então toda repulsa
Transformou-se de repente.
O rei chamou-o para mesa
Como homem competente.
Consigo dizia João:
Na hora da refeição
Vou ensinar essa gente.

O almoço foi servido
Porém João não quis comer.
Despejou vinho na roupa
Só para vê-lo escorrer.
Ante a Corte estarrecida
Encheu os bolsos de comida
Para toda a Corte ver.

O rei bastante zangado
Perguntou para João:
Por qual motivo o senhor
Não come da refeição?
Respondeu João com maldade:
Tenha calma, majestade
Digo já toda a razão.

Esta mesa tão repleta
De tanta comida boa
Não foi posta para mim
Um ente vulgar, à toa.
Desde a sobremesa à sopa
Foi posta para minha roupa
E não para minha pessoa.

Os comensais se olharam
O rei perguntou espantado:
Por que o senhor diz isto
Estando tão bem tratado?
Disse João: isso se explica
Por estar de roupa rica
Não sou mais esmolambado.

Eu estando esfarrapado
Ia comer na cozinha.
Mas como troquei de roupa
Como junto da rainha.
Vejo nisto um grande ultraje
Homenageiam meu traje
E não a pessoa minha.

Toda Corte imperial
Pediu desculpa a João.
E muito tempo falou-se
Naquela dura lição.
E todo mundo dizia
Que sua sabedoria
Era igual a Salomão.


Poeta natural de Ingá/PB (1880-1959)      



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