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Catulo da Paixão Cearense



Catulo da Paixão Cearense, poeta nascido em São Luís - Maranhão, em 1863, e falecido em 1949.


Saudade (um trecho)

(...)
Como é que sente a saudade um vaqueiro?
Ouça lá, meu bom patrão, vou lhe dizer:

Como um boi velho, cansado,
Pacientemente, a remoer,
Que o capim verde que come,
Torna outra vez a comer;

Hoje, velho, relembrando
Minha alegre juventude,
Tudo quanto já fruí;
Como um boi, vou ruminando
O meu Passado saudoso
Que foi em tempo ditoso
O capim verde e cheiroso
Que, quando moço, eu comi.

Mas, às vezes, a saudade
Acorda minha mocidade
Com tanta exasperação,
Que eu abro as duas porteira
Dos óio, meu bom patrão,
E deixo que, atropelada,
Saia, só numa arrancada,
Toda a boiada das lágrima
Do currá do coração.

A PROMESSA (um trecho)

CANTO

Levei três mês escavando
Uma cacimba bem funda,
Pra meu roçado moiá!
Mas porém, já tão cansado,
Pru mais que a terra escavasse,
Não achei d’água siná!

Há muito tempo, cabôca,
Com a enxada da minha mágoa,
Eu cavo em teu coração,
Em teu coração tão seco,
Que não dá um pingo d’agua,
Nem um só, pru compaixão!

Há muito tempo o roçado
Já morreu esturricado!
Já não sabe o que é pená!
E a minha dor inda cava
Na cacimba do teu peito...
E continua a cavá!

DESAFIO

          Bacatuba:

Minha viola, morena
É uma gaiola de pinho,
Adonde canta e soluça
Tudo quanto é passarinho!

          Sabiá:

Toda viola foi árve,
Que o machado derribou!
Pru via disso ela canta
O que dos pásso escutou.

          Bacatuba:

Isso é mentira, seu Pedro!
Vassuncê é um bobaião!
A viola só acompanha!
Quem chora é o meu coração!

          Sabiá:

Eu arrepito, sem medo,
Que a viola, sim, senhô,
Já foi árve e agora canta
O que dos pásso escutou.

          Bacatuba:

Sem os dedo, que nas corda
Sabe gemê com carinho,
Que seria da viola?!
Gaiola sem passarinho!

          Sabiá:

Seu Bacatuba, um violeiro,
Como é tu, que eu não sei, não,
Não maltrata uma viola,
Que tem alma e coração.

          Bacatuba:

Se eu maltratasse a viola,
Inda tinha duas mão,
Pra pedir perdão às corda,
Fazendo a minha oração.

          Sabiá:

Eu amo tanto a viola,
Minha dó, minha alegria,
Como adoro, rezo e canto
À Santa Virgem Maria!

          Bacatuba:

A viola que eu mais adoro,
A mais formosa que eu vi,
É um diabo que veste saia,
E não tá longe d’aqui!

O Sol, formoso e tão lindo,
Como uma lua de fogo,
Ia assubindo!... assubindo!

Um ventozinho mimoso,
Nas mata verde bulindo,
Passava todo cheiroso,
As fôia sêca das árve
Pelos campo sacudindo!...
Fazendo as fôia das árve
Dançá na estrada o xerém,
Como se aquele ventinho
Fosse brincando pra igreja
Ouvir a missa também!

Que ventozinho tão lindo!

E o Sol, mais meno vermêio,
Ia assubindo... assubindo!

Mas porém, nós empaquemo,
Pra um desafio escutá
De dois cabra topetudo,
Que se danava a cantá!

Um, nos gaio da arueira,
Outro, n’uma laranjeira,
E um cabra era o pintasirgo,
E outro cabra o sabiá.

Só pra ouvir o desafio
Dos dois pásso famanado,
O rio táva aparado,
Sem uma ruga, que, inté,
Parecia de tão branco,
Entre o verdô das foiáge,
— Uma fôia de papé.

Mais adiante, um riachinho,
um rio pequenininho,
Vinha correndo, aos pulinho,
Cheio de amô e tristeza,
Saltando, de quando em quando,
Fazendo renda nas pedra
E disfarçando a pobreza!

Quantas fulô pequenina
Ria pra gente escondida
Entre o verdô das campina!

Quando um home do sertão,
Passando, vê uma flô,
Não apanha a flô co’a mão!
Apara e, despois, seguindo,
Leva a flô no pensamento
E o aroma no coração!

Era impossive, despois,
Dizê as vez que nós dois
Tinha parado pra vê:
Duas rolinha dengosa
Pelas pedrinha a corrê!...
Uma graúna!... um xexéu!
Um azulão, que parece
Que tinha manchado as pena
Nas nuve azul lá do céu!

Um cancão!... Um guanumbi!...
Um bando de juruti!...
Um tiê-sangue!... Uma choca!...
As inhambú!... As piaçoca!...
Um xofrêu!... Mais um vim-vim!...
Um cara-suja, bebendo
O sereno do capim!...
Mais um galo de campina!...
E tanta coisa divina!...
Um carro de boi cantando,
E os boiadeiro gritando: —
“Vamo! Vamo, Lapiado!
“Estrela!... Toma cuidado!...
“Deixa o capim, Beija Flô!...”

E outras tanta maravia
Daquele nascê do dia!...
Daquela manhã de amô!!!



SERTÃO EM FLOR (um trecho)



Vosmicês diga o que é
Um coração  de home véio
Que quanto mais véio fica,
Mais aprecia uma muié!


Vosmicês ri ?    Falo sério.

O coração do home véio
É um burro véio trotando,
Daqui e dali trupicando
Na derradeira viage,
Que faz lá pro cemitério,
Comendo pelos caminho
Um resto seco de espinho
Que vai topando no chão ,
Bebendo uns pingo de orváio
Dos óios – as duas cacimba
Da fonte do coração! ...

Em riba duma cangáia
Duas muié carregando
Com  o peso  todo da idade:
Uma, já morta: a Esperança,
Outra, inda viva: a Saudade,...

Até cair com a Esperança
E o cadáver da Saudade
E os frutos podres dos anos
Que ele leva no jacá,
Pra  recebê,  afiná,
O beijo de amô da boca
Da namorada dos véio,
Que toda mágoa alivia,
Que toda pena consola!...
A Morte, patrão, a Morte!
Essa cabôca fié!
Muda... Surda...Cega e fria,
Que, depois de uma  viola,
É a mais mió das muié.



O AZULÃO E OS TICO-TICOS



Do começo ao fim do dia,
Um belo azulão cantava, 
E o pomar que atento ouvia
Os seus trilos de harmonia
Cada vez mais se enflorava.

Se um tico-tico e outros bobos
Vaiavam sua canção, 
Mais doce ainda se ouvia
A flauta desse azulão.

Um papagaio, surpreso
De ver o grande desprezo 
Do azulão, que os desprezava,
Um dia em que ele cantava
E um bando de tico-ticos 
Numa algazarra o vaiava, 
Lhe perguntou: "Azulão,
Olha, diz-me a razão
Por que, quando estás cantando
E recebes uma vaia 
Desses garotos joviais,
Tu continuas gorjeando,
E cada vez cantas mais?!"

Numas volatas sonoras,
O azulão lhe respondeu:
"Meu amigo, eu prezo muito
Esta garganta sublime,
Este dom que Deus me deu!

Quando há pouco, eu descantava,
Pensando não ser ouvido 
Nestes matos, por ninguém,
Um sabiá que me escutava,
Num capoeirão, escondido,
Gritou de lá: "meu colega,
Bravo!....Bravo!...Muito bem!"

“Queira agora me dizer:
Quem foi um dia aplaudido
Por um dos mestres do canto,
Um dos cantores mais ricos 
Que caso pode fazer
Das vaias dos tico-ticos?!”



TERRA CAÍDA (um trecho)



A lua, branca arupema,
Toda redonda e cheinha,
Peneirava lá de riba!
E o rio tava tão branco,
Como um montão de farinha!
*
A Mãe de Cristo, tão bela,
N’um oratório enfeitada,
Tava no meio das vela,
Morena e toda estrelada,
Rezando, como uma estrela,
Na boca da madrugada!
*
Se o vaqueiro abria os braço,
Atirando uma laçada,
Maiby fugia do laço,
Soltando uma gargaiada.
*
Entre as nuvem de pueira,
A cabôca parecia
Tal e quá uma novilha,
Saindo dos capueirão,
Doida, às tonta e às marrada,
Fugindo, entre os espinheiro,
D’um valente boiadeiro,
Pelos mato do sertão.
*
Os dois cupuassú moreno,
Maduro, fresco, formoso,
Dois curumim vergonhoso,
Que ninguém podia vê,
Por baixo d’aquelas renda,
Tinha o cheiro, inda quentinho,
Da boca d’um bezerrinho,
Quando acaba de nascê.

Os pezinho da cafuza,
Que se tu visse, chorava,
Não dançava, palpitava,
Tal e quá dois coração!
Tão leve, que parecia,
N’um rodá de carrapêta,
Um casá de borboleta,
Brincando rente do chão!

Quando um momento parava,
Deixando o suó moreno,
Como os pingo de sereno,
Por todo o corpo corrê,
A sala ficava cheia
Desse aroma que se sente
Do cheiro da terra quente,
Quando começa a chovê.
*
O céu, de todos os lado,
Parecia uma tigela
Com o fundo azul emborcado,
Todo esmaltado de novo,
Adonde a lua, tão bela,
Ia boiando, amarela,
Como uma gema de ovo!
*
Deus, que um dia fez o home,
Pela sua santa image,
Fez o nosso coração,
Como as floresta bravia
Das terra virge... selvage!

Virge, em suas mataria!...
Selvage, em sua grandeza!...
Mas porém, que tem beleza
Pra quem aprecia as coisa
Mais grande da natureza!

Um dia, vem a muié!

A muié pega um terçado,
Pega uma foice, um machado,
Desgaia o mato fechado
Das terra do coração!
E ao depois da derrubada,
Depois do fogo — a queimada —
A muié pega uma enxada,
Cava a terra, bem cavada...
E semeia!... É a plantação!

Tudo quanto é floração,
Toda a flô que a terra cria,
Tudo nasce, ali, n’um dia,
Onde tava a mataria
No fundo do coração!

Se a muié sabe que é ingrata,
Pra que vai mexê nas mata
Daqueles grande arvoredo,
E queimá, como um brinquedo,
O mato virge, cerrado,
Escuro e sempre fechado,
Adonde não tinha entrado
A luz do Sol, que é o Amor!?

É pra depois, sem razão,
Derrubá pra toda a vida
O jardim do coração,
Sem um tiquinho de dó!




O LENHADOR (um trecho)


Despois d’esta jura santa,
Pra tê de todas as planta
A graça, o perdão inteiro
Dos crime de home ruim,
Foi se fazê jardineiro,
E não fazia outra coisa
Senão tratá do jardim.

A vó, que já carregava
Mais de noventa janeiro,
Dizia que neste mundo
Nunca viu um jardineiro,
Que fosse tão bom assim!

Dormia todas as noite,
Deixando a janela aberta,
Pra escutá todo o rumô,
E às vez, inté altas hora,
Ficava, ali na janela,
Ouvindo o sonho das flô!

De manhã, de manhã cedo,
Lá ia sabê das rosa,
Dos cravo, das sempre-viva,
Das maguinólia cheirosa,
Se tinha dormido bem!
Tinha cuidado com as rosa
Que muita vó carinhosa
Com os seus netinho não tem!

Dizia a uma flô: “Bom dia!
“Como tá hoje vermêia!...”
Dizia a outra: “Coitada!
“Perdeu seu mel!... Foi roubada!
“Já sei quem foi!... Foi a abêia!”

Despois, com pena das rosa,
Que parece que chorava,
Batia leve no gaio,
E as rosa desavexava
Daqueles pingo de orvaio!

Ia apanhando do chão,
As flô que no chão caía!


Despois, com as costa da mão,
Alimpando os pingo d’água
Que vinha do coração,
Batia em riba do peito,
Como quem faz confissão.

Quando no sino da igreja
Tocava as Ave-Maria,
Nos canteiro, ajuêiado,
Pedia a Deus pelas alma
Das flô, que naquele dia
No jardim tinha enterrado!

E agora, quando passava
Junto das árvore, cantando,
Cheio d’água carregando
O seu véio regadô,
As árvore, feliz, contente,
Que o lenhadô perdoava,
No jardineiro atirava
As suas palma de flô!




A VAQUEJADA (trechos esparsos)



Oiando a cara da lua,
Escondida atrás do tronco
Do empinado macujé,
Mané Pelado cantava
Uns acalanto tão triste,
Que lá pra os mato voava,
Como à procura do ninho
D’um coração de muié.


Não se ouvia mais um pio,
A não sê o desafio
Dos sapo, dentro dos brêdo,
Os cachorro da Fazenda
Latindo pras sombra roxa
Das foiage do arvoredo,
E longe n’uns arrepio,
O choro doce e macio
Desse violeiro o — Silêncio —
Cantando... chorando as mágoa
Nas corda d’água do rio!

Tava a noite que nem dia!
A lua inté parecia
Uma flô dos aguapé,
E as estrela era as abêia,
De todo o lado voando,
Pra vim chupá o seu mé!

Vendo a lua como tava,
Você jurava, jurava
Que as água que lá da crista
Da serra vinha rolando,
Era o luá que caía
Do céu e, branco, escorria,
Nas pedra se esfrangaiando!

De manhã, quando acordei,
Com os suspiro das foiáge,
Soluçava as ribaçã!

O Sol — roceiro do céu —
Queimava os mato das nuve,
Na queimada da manhã!

Ai, que saudade das água
Que tem o cheiro da terra,
E esse gosto de sereno
Das cacimba do sertão!

Mais longe, um tamarineiro,
Com o Sol por riba das fôia,
Lá num monte empoleirado,
Parecia um passo verde
Com o seu topete encarnado.

Despois, entre a escuma verde
D’uma moita de taboca,
A lua vinha nascendo,
Como um bolo de mandioca.


O CANGACEIRO (um trecho)


De tanto e tanto sofrê,
O coração, que padece,
Fica duro, como um calo!
No sofrimento endurece!
Calêja na desventura,
Como as pata dos cavalo
Na estrada de pedra dura!

Amontado no Caxito,
Eu seguia de viage,
E passava pela Serra...
D’ali, de Jabitacá,
Quando vi uma morena,
Fazendo renda de birro,
Embaixo d’uma guaipá.

A cabôca, com o pezinho
Em riba d’um panacú
De páia de burití,
Era formosa, era bela,
E tinha a pele amarela,
Como a flô do muricí.

Do jerimum tinha ela
O aroma, o cheiro e a cô!
Tinha uns óio pequenino
De guanumbí, que seu moço
Conhece por beija-flô.

Não tinha a boca da rosa
Vermêia e muito pequena!
 Tinha o tamanho d’um beijo
 Aquela boca morena!

Veruca, (apois era esse
o nome da tentação),
Fazia renda do lado!...
Mas porém, moço, o pió,
É que o Amô, esse espião,
Cá dentro e lá dento dela,
Fazia renda o marvado
Nos nossos dois coração!

Espetada nos cabelo,
Trazia uma flô dos mato,
Flô querida das abêia!
E ela, assim, estremecendo,
Mansinha, como uma ovêia!...
Piando, como um pintinho,
Quebrando a casca do ovinho,
Tava, seu moço, mais bela,
Mais triste e mais amarela
Que as areia dos caminho!

Como tava linda e bela!


Ai, de quem bebe, patrão,
O mais pio dos veneno,
N’uns pinguinho de sereno
De dois óio, como os dela!

Tirando o pé da chinela,
Na esteirinha se assentou;
N’um véio gibão de couro,
A cabecinha pousou;
E ao despois, a luz dos óio
Foi, pouco a pouco, escondendo,
Tal e quá dois vagalume
Se despedindo da noite,
Quando o dia vem rompendo.


Fui devagá!... de mansinho!...


Devagá!... devagarinho!...


E a flô dos cabelo dela,
Como quem beija uma santa,
Não nego, patrão!... Beijei!


Tive entonce uma vertige!...


Senti um gosto na boca
Das fôia dos mato virge!


Correu por todo o meu corpo
Um mistério, que eu não sei!
Pensei na Virge Maria
E em minha mãe eu pensei!
Despois, a imagem do Cristo
Da parede despreguei!...


Do outro lado da esteira
De catolé, me deitei!...
Pra me livrá do pecado,
Entre nós dois, eu e ela,
A Santa Image botei!


Quando, às vez, o coração
Mais desinquieto batia,
Eu me agarrava com o Cristo,
Rezando uma Ave-Maria!


Queria a carne uma coisa
Que o espírito não queria!
E assim passei toda a noite,
Garrado com Jesus Cristo,
Rezando com devoção!
Pra São Cosme e São Damião!
Em certas ocasião,
Quando o diabo nos consome,
Um home deve sê home,
E eu fui home e fui cristão!

Não vale a pena, seu moço,
Porque é uma grande verdade: —
Que é a mais grande das besteira,
Na besteira desta vida.
A gente dar de comida
Na boca d’uma saudade!



O MARROEIRO



Lá, pras banda onde eu nascí,
Já se falava do Amô:
Todas as boca dizia
Que era falso e matadô!

Mas porém, foi trazantonte,
No samba do Zé Benito,
Que apanhei uma chifrada
Que me deu esse mardito!

Nas malvadage do Amô
Não há cabra que não caia,
Quando o diabo tira a roupa,
Tira o chifre e tira o rabo
Pra se vestí c’uma saia!

Se desfoiando no samba,
Cantando uma louvação,
Eu vi a flô dos caborge
Das morena do sertão!

Trazia dentro dos óio
Estrepe e mé, como a abêia!
Oiôu-me como uma onça!...
E, ao despois, como uma ovêia!

Aqueles óio xingôso,
Eu confesso a vosmicê,
Ruía a gente por dentro
Que nem dois caxinguelê!

Sem mardade, um beijo dado
Naquela boca orvaiada,
Havéra de tê, marruêro,
O cheiro das madrugada!

A fala dela, marruêro,
Era o gemê do regato,
Que vai beijando as foiage,
Que cai da boca dos mato!

As duas rôla morena,
Por baixo do cabeção,
Tremia, como a água fresca,
Quando o vento beija as água
Das lagoa do sertão!...

Porque os dois peito lembrava
Dois maduro cajá-manga,
E a boca, toda vermêia,
Parecia uma pitanga.

Cheirava as mão da cabôca,
Como os verde maturi!...
Era tal e quá, marruêro,
Dois ninho de juruti!

Os pezinho da curumba,
Quando dançava o baião,
Parecia dois pombinho,
A mariscá pelo chão!

Eu me lembro!... A saia dela,
Cô das pena da irerê,
Tinha a saudade dos mato,
Quando vai anoitecê!!

Aqueles braço de fogo,
(Deus não me castigue, não!)
Queimava, como as fogueira
Das noite de São João!...

Marruêro!... Os cabelo dela
Tinha o calô naturá
Da pomba virge dos mato,
Quando começa a aninhá!...

Apois, os cabelo dela
Tão preto pro chão caía,
Que toda flô que botava
Nos cabelo, a flô murchava,
Pensando que anoitecia!

O suó que ela suava
No samba, cheirava tanto,
Que inté a gente sentia
Um cheiro de igreja nova,
Um cheiro de dia santo!

As anca, as cadeira dela,
Surrupiando no côco,
Toda a se tamborilá,
A mode que parecia
O chacoaiá de uma onda,
Que vem jupiando, redonda,
Na praia se derramá!

Japiaçoca dos brejo,
No arrastado do rojão,
Cantava com tanta mágoa,
Com tanto amô e paixão,
Que espaiava, no terreiro,
O aroma do coração!

O coração das viola
Aparava, de mansinho,
Se os dois filhote de rola,
Quando ela tava sambando,
Pulava fora do ninho!...

Entonce, aqueles dois óio,
Sereno, como o luá,
Vinha pra riba da gente,
Tal e quá dois marruá.

Entrava dentro da gente,
Como duas zelação!...
Mas porém, a gente via,
No fundo daqueles óio,
A hora da Ave-Maria,
Gemendo nas corda fria
Das viola do sertão!

*
Eu tinha o corpo fechado
Pra tudo o que é marvadez!
Só de surucucutinga
Eu fui mordido tres vez!...

Tando com o corpo fechado,
Pras feitiçage do Amô,
Pensei que eu tava curado!

Dos marruá mais bravio,
Que nos grotão derribei,
Muita chifrada penosa,
Muita marrada eu levei!

Pra riba de mim, Deus pode
Mandá o que ele quisé!

O mundo é grande, marruêro!...
Grande é o amô!... Grande é a fé!...

Grande é o podê de Maria,
Esposa de São José!...

O Diabo, o Anjo mardito,
Foi grande!... Como inda é!

Mas porém, nada é mais grande,
Mais grande que Deus inté,
Que uma chifrada, marruêro,
Dos óio d’uma muié!

6 comentários:

Semana do Catullo disse...

“Semana do Catullo” de 04 à 11 de outubro de 2012
Evento Nacional com Ações Culturais Obra de Catullo da Paixão Cearense.
A Obra de Catullo abrange Música, Literatura, Teatro e Cinema possibilitando inclusive Espetáculos de Artes Integradas.
Para receber material Biográfico e Literário de Catullo da Paixão Cearense, bem como textos que podem servir de base a produção de espetáculos, saraus, recitais, peças teatrais, musicais. envie email de confirmação ao evento::
semanadocatullo@gmail.com

rachel castro disse...

Local e horários ??? Quero muito participar. Obrigada. Rachel.

Semana do Catullo disse...

Olá Rachel, Boa noite,


sua adesão é muito importante para o sucesso do Evento, até o momento mais de 200 Instituições Culturais Aderiram a " Semana do catullo" dentre elas, Bibliotecas, Museus, Secretarias Estaduais e Municipais de Cultura e Educação, Casas de Convivência da Melhor Idade< Centros de Cultua Nordestinas, Ministério da Cultura, Produtores Culturais , Artistas ...

Os locais e horários ainda serão divulgados por cada Produção, e posteriormente em nosso Site que está em construção.

Por favor envie-nos um email
para semanadocatullo@gmail.com ou entre em contato pelo telefone (21) 3164-6474 para que possamos lhe enviar Relato Biográfico e posteriormente informações mais precisas, pois não obstante , a Realização sob todos os aspectos exija antecedência, no que diz respeito aos Informes Publicitários de cada Evento, será necessário maior proximidade a data ao mes em questão (outubro).

Cordialmente,

Roberto Azevedo
Núcleo de Articulação

rachel castro disse...

Eu adoro este blog!!! Vou lendo assim, aos pouquinhos. É como um pedacinho de docinho a adocicar meus pensamentos cada vez que leio um trechinho!!!
Para um desconhecido que sempre conheço mais um pouquinho.... um beijinho! Rachel Castro

Almir Lyra disse...

Obrigado Rachel Castro por suas visitas e pela gentileza do comentário. Fico contente por você gostar do blog. Eu tento melhorá-lo cada vez mais divulgando para o público apologista o que há de mais interessante na produção dos melhores poetas populares, cordelistas e repentistas que enriquecem a cultura nordestina. Você é sempre bem-vinda! Abraços!

Veritas Liberate Vos disse...

Sou estudante de letras clássicas com habilitação em latim e grego, mas um apaixonado por nossa poesia e cultura nordestina. Fiquei feliz em encontrar um lugar onde essa cultura é levada à sério. Parabéns.